Itapagipanos

Publicado em 23/04/2010

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Foto: Agnes Mariano

 

Texto: Agnes Mariano
Fotos: Andre Stangl e Agnes Mariano

Pequeno, magro e ainda com a farda do colégio, José Orlando da Silva chega de mansinho e aborda o visitante com gentileza. Oferece seus préstimos de guia ao mesmo tempo em que, com desenvoltura, vai demonstrando o que já aprendeu em seus 10 anos de vida. Ele fala de batalhas em Monte Serrat, da beleza das praias da Ribeira, da fé no Senhor do Bonfim, cita datas, nomes, empolga-se contando a história do náufrago português que, para se salvar de uma tempestade, “prometeu construir uma igreja no ponto mais alto que avistasse”, frisa bem que foram os negros que iniciaram a tradicional lavagem e afirma ter aprendido tudo o que sabe por sua própria conta, “com um livro que já não existe mais”. O que o pequeno Orlando, mais conhecido como “Periquito”, talvez não saiba é que, além de histórias e prédios, há um outro importante patrimônio preservado na península de Itapagipe: um jeito de ser impregnado de cordialidade, civismo, bom humor, provincianismo, hospitalidade e respeito, sem servilismo. Lá, milagrosamente, a cada esquina ainda se pode reencontrar aquilo que Jorge Amado descreveu como “um estado de espírito, certa concepção de vida, quase uma filosofia, determinada forma de humanismo”, para definir o que é ser baiano, mas que também pode nos ajudar a entender o que é o jeito “itapagipano” de viver.

“Porção de terra cercada de água por todos os lados, menos um, pelo qual se liga a outra terra”, explica o dicionário. Mas a definição técnica não é capaz de explicar porque, para quem nasce e cresce numa península, a vida tem um sabor diferente. Por um lado, é como morar numa ilha: para onde quer que se olhe, lá estão o mar, barcos, navegantes, pescadores, praias, convidando ao esporte, namoros, relaxamento. Todos se conhecem e a vida segue sem sobressaltos. Só que, na península, sempre há um caminho que conduz a uma outra porção de terra, ao continente, que a conecta ao resto da cidade, com seus atrativos e problemas. Negar-se ao contato é isolar-se, aproximar-se demais é arriscar-se.

Em Itapagipe, tudo acontece devagar, tanto que até a própria península surgiu aos poucos, através de um aterro natural. Ou seja, o vaivém suave e constante das marés foi depositando sedimentos ao longo de uma faixa entre o continente e uma pequena ilha da Baía de Todos os Santos, até que terminou por interligar definitivamente as duas áreas, formando assim uma península. Os tupinambás gostaram do que viram, tanto que chegaram a ter uma aldeia na península. Ela foi uma das últimas a permanecer com autonomia, mas sucumbiu às desavenças entre índios e colonos portugueses que movimentaram a Cidade Baixa e também não resistiram às ambições de Garcia D’Ávila, que iniciou seus negócios lucrativos em Itapagipe, instalando lá currais e olarias, ainda no século XVI. Nessa mesma época, também começaram a erguer os fortes, como o de Monte Serrat, onde muito sangue foi derramado, como o do general holandês Johan van Dorth.

Foto: Andre Stangl

 

Para aliviar o espírito, no século seguinte foram construídas várias capelas e igrejas na península. Nossa Senhora de Monte Serrat, para proteger os militares; Nossa Senhora da Boa Viagem e Bom Jesus dos Navegantes, para abençoar os navegadores; Nossa Senhora da Penha de Itapagipe, para consolar os perseguidos e, finalmente, Nosso Senhor do Bonfim, para proteger todos os que o invocassem. Ao redor desses templos e em torno das atividades marítimas – pesca, transporte e reparo das embarcações -, a península foi desenvolvendo uma vida própria, um jeito festivo e pacífico, uma hospitalidade incomum. Primeiro por causa do Senhor do Bonfim e depois por todas as outras festas e pelas belezas naturais, os soteropolitanos foram cada vez mais gostando de passar temporadas em Itapagipe.

O veraneio foi uma febre, principalmente na primeira metade do século XX, mas havia também muita gente rica e poderosa que optava por morar. Afinal, em Itapagipe existiam dois cinemas, sorveteria, clubes e até um hidroporto, ou melhor dizendo, o primeiro aeroporto baiano. Na praia, era só escolher entre a natação, a pescaria, o bate-papo, o futebol ou o remo, o esporte que levou o nome da península para todos os cantos. Em traje de gala, gente de toda a cidade ia até a Ribeira assistir às regatas. Como resquício do glamour dessa época, ainda restam, aqui e ali, algumas mansões. Algumas estão em ruínas, outras foram preservadas ou atendem a novas funções, como a bela propriedade em Monte Serrat onde está instalado o Centro de Recursos Ambientais (CRA), que alguns consideram a mais bonita da península.

Sede de várias fábricas desde o século XIX, como a Empório Industrial do Norte, de Luís Tarquínio, na Boa Viagem, a península atravessou uma fase amarga a partir dos anos 50, quando mais de 30 fábricas poluentes se instalaram por lá ou em áreas próximas. O mau cheiro da Chadler, a fumaça da Souza Cruz e muitos outros problemas espantaram os veranistas. Em busca de um lugar ao sol, uma multidão se deslocou de forma improvisada para a região, aterrando manguezais, destruindo ecossistemas, colocando a própria vida e saúde em risco.

No finalzinho do século XX, os itapagipanos decidiram reagir. Frente a uma Itapagipe debilitada, mas ainda com grandes atrativos, eles uniram forças para definir as melhorias prioritárias e para dialogar com o poder público, exigindo intervenções. Criaram um órgão que congrega dezenas de associações de moradores e outros tipos de organizações. Prepararam um plano de trabalho para ser cumprido em cinco anos, indicando aos poderes públicos o que precisa ser feito nos vários bairros que compõem a península. A lista é grande, mas eles são pacientes e teimosos o suficiente para esperar que ela seja cumprida integralmente, além de colaborar como podem.

Como têm consciência histórica, os itapagipanos sabem que no passado já viveram dias melhores. Assim, eles encontram coragem para lutar por um futuro mais promissor. Não estão em busca de luxo, riqueza, ostentação. Querem de volta apenas aquilo que já tiveram: o direito de mergulhar no mar quando bem entenderem, sem ter que se desvencilhar de lixo, mercúrio ou embarcações; querem saúde, educação e emprego para milhares de novos itapagipanos; querem, de novo, embasbacar visitantes que, no passado, apelidaram Itapagipe de “Riviera baiana”.

Foto: Agnes Mariano


UMA OUTRA CIDADE

Flechas envenenadas partiam de um lado. Balas de canhões respondiam de outro. De vez em quando, algum inimigo vinha pelo mar. A vida nem sempre foi muito pacífica em Itapagipe. Isso, num tempo em que, apesar de vizinhos, os moradores da península não se consideravam irmãos. Olhavam para o passado e se definiam como “portugueses”, “índios”, “holandeses”, “africanos”, ao invés de olhar para o futuro e se perceberem “brasileiros”. Ainda não havia paz, porque ainda não havia acontecido o milagre da mistura, da miscigenação, que torna todos iguais. Um milagre que, apesar de ainda não estar completo, já faz do Brasil, para muita gente, o país mais hospitaleiro do mundo. Na península de Itapagipe, a paz começou a surgir quando, no alto de uma colina, foi erguido um templo para o santo mais democrático do país, que aceita rezas, procissões, transes e batuques para homenageá-lo.

Há cinco mil anos atrás, Itapagipe era uma pequena ilha, englobando a área que conhecemos hoje como Ponta de Monte Serrat e Bonfim, “mas a deposição de novos sedimentos terminou por aterrar naturalmente a região entre a Calçada e o Bonfim”, conta o geólogo Alex Pereira no seu ensaio “A colina sagrada era uma ilha”, explicando como a ilha se transformou em península. O nome foi dado pelos primeiros habitantes – os índios tupinambás – que, vivendo na “Idade da Pedra Polida”, costumavam “classificar as regiões e localidades de acordo com as rochas encontradas no local”, diz Pereira. Para a bucólica região da Cidade Baixa, escolheram o nome de “pedra que avança para o mar”: Itapagipe.

Salvador surgiu timidamente. Uma cidadela protegida por muros e acessível por duas portas, a de São Bento e a do Carmo. Do lado de fora, dezenas de aldeias indígenas alternando-se com roças de colonos. A cada nova leva de portugueses que chegavam, aumentavam os conflitos com os índios. “Havia na colônia americana três tipos de aldeias no século XVI: aquelas que mantinham integralmente a sua autonomia, as que haviam sido submetidas diretamente ao controle de colonos portugueses e as administradas pelos jesuítas”, conta a historiadora e antropóloga Maria Hilda Paraíso. Entre as aldeias que conseguiram se manter autônomas por mais tempo está justamente a de Itapagipe, mesmo que, bem ao lado, já existissem propriedades como o engenho do provedor-mor Antônio Cardoso de Barros, na Calçada, ou a fazenda de João Avelosa, um pouco além do Lobato, cita Maria Hilda.

Foto: Andre Stangl

 

Em 1556, entretanto, um incidente sacudiu a Cidade Baixa e pôs fim às boas relações entre índios e portugueses, tendo como cenário justamente o Engenho do Cardoso. Os índios atacaram o engenho “em represália à morte de um ‘principal’ (líder da aldeia). Os revoltosos aprisionaram o gado, os vaqueiros, vários escravos e três moradores”, depois seguiram para Itapuã, em busca de alianças. Daí a guerra não parou mais: os portugueses invadiram e incendiaram três aldeias nas imediações do engenho e foram para Itapuã. Os índios se prepararam e novamente atacaram o Engenho do Cardoso. O governador-geral Duarte da Costa ordenou então uma ofensiva maior: “Duzentos infantes, vários cavaleiros e escravos voltaram ao ataque, levantaram o cerco ao engenho, queimaram cinco aldeias, mataram as lideranças e muitos outros guerreiros. Crianças e mulheres foram trazidas como prisioneiras para a cidadela. No caminho de volta para Salvador, a tropa queimou mais três aldeias”. É improvável, portanto, que a aldeia de Itapagipe tenha resistido a um conflito dessas proporções. Entre os sobreviventes, quem não foi aprisionado, preferiu mudar de endereço.

Garcia D’Ávila
Os anos vão passando e as transformações prosseguem, como atestam os relatos do final do século XVI, que falam de uma Salvador ainda pequena, mas em expansão. Além de três ruas na parte alta, na parte de baixo havia o bairro da praia, a ribeira das naus e as casas comerciais, área hoje conhecida como Comércio. Nos arredores, plantações de cana e algodão. Em Água de Meninos ficava o engenho de Cristóvão Daltro e “na ponta de Itapagipe, localizavam-se duas olarias e currais de gado pertencentes a Garcia de Ávilla”, conta o historiador Luis Henrique Dias Tavares, em “História da Bahia”. Foi na península, portanto, que começou a trajetória dessa família, que, através da pecuária e do açúcar, chegou a ser a mais rica do país.

O primeiro Garcia D’Ávila chegou a Salvador em 1549, na mesma comitiva de Tomé de Souza, o primeiro governador-geral do Brasil, que, acreditam alguns historiadores, provavelmente era seu pai. Da primeira leva de gado que veio de Portugal, duas vacas foram destinadas a D’Ávila. Dois exemplares que ele levou para Itapagipe e, lá, se multiplicaram em muitos. Mas a península era muito pequena para as ambições desse homem, que não se contentava em apenas cuidar de gado e fabricar cerâmicas. Ele e seus descendentes enriqueceram tanto que chegaram a possuir terras que iam da Bahia à divisa do Maranhão com o Piauí. O centro do império ficou no castelo medieval “Casa da Torre”, na Praia do Forte.

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Canhões e rezas
Na península, também foi construída uma fortaleza conhecida como “Castelo de Itapagipe”, “Forte de São Felipe” ou do “Monte Serrat”, em 1587. As condições favoráveis ao desembarque eram fonte constante de preocupação. Além desse, outros fortes erguidos na Cidade Baixa foram o de Santo Alberto, ou “Lagartixa”, perto do terminal de ferry boat e o da Jequitaia. Entre os portugueses, a preocupação com segurança era constante, pois eles não eram os únicos interessados nas riquezas do novo mundo. Ainda que, para os colonos, o cotidiano fosse cada vez mais tranquilo na península e arredores – com os engenhos, currais e pesca prosperando e os índios cada vez mais deixando de ser uma ameaça -, todos sabiam que o perigo estava sempre rondando.

Em maio de 1624, chegaram os invasores holandeses, em 26 navios, “trazendo 1.600 marinheiros, 1.700 soldados e 500 bocas de fogo”, enumera Tavares. O comando no mar era de Jacob Willekens e Pieterzoon Heyn. Em terra, quem mandava era Johan van Dorth. Os dois chegaram, invadiram e dominaram, mas nunca se entenderam, o que os enfraqueceu. Também não esperavam pela resistência de brasileiros e portugueses. Um dos golpes mais duros para eles veio em julho de 1624, bem ali na península: “Nas proximidades do Forte de São Felipe, o capitão de emboscada Francisco Padilha surpreendeu um grupo inimigo comandado pelo próprio governador Johan van Dorth, na ocasião atacado e morto”, conta Tavares. Morto em batalha, Van Dorth foi retalhado e levado aos pedaços para dentro do forte de Monte Serrat. Em 1635, quando retornaram ao Brasil, os holandeses, talvez não por acaso, atacaram e dominaram o mesmo forte, mas, dessa vez, não conseguiram penetrar em Salvador.

Em meio a tantas ameaças, os novos habitantes de Itapagipe tiveram um lampejo de bom senso e perceberam que era preciso mais do que balas de canhões para se protegerem. Por isso, foram erguendo pequenas construções onde pudessem, de vez em quando, rezar. Foi provavelmente numa noite insone no alto da colina onde está o Forte de Monte Serrat, que um militar catalão devoto de Nossa Senhora de Monte Serrat resolveu erguer uma capela a ela dedicada. Desistiu de preocupar-se com a segurança. A essa altura, ele já sabia que muros, armas, sentinelas e rochedos não podiam deter os inimigos. Escolheu apenas o local mais belo que podia avistar lá de cima, a extremidade de um trecho de terra que avança para o mar: a Ponta de Humaitá.

Foto: Agnes Mariano


TERRA SAGRADA

Um conjunto de casas, uma praça, um templo. Nas cidades brasileiras, esses são os elementos básicos para que um lugar possua identidade própria. Em Itapagipe, também foi assim. Cada local se desenvolveu ao redor de um largo e um templo. Nossa Senhora da Boa Viagem e Bom Jesus dos Navegantes estão logo no começo, numa bela igrejinha a poucos metros do mar, onde acontece anualmente uma concorrida procissão marítima. Depois, vem a capela de Nossa Senhora do Monte Serrat. Seguindo em frente, pela Rua Rio São Francisco, chega-se à colina sagrada, onde está a igreja do Senhor do Bonfim e Nossa Senhora da Guia. E, de lá mesmo, é possível avistar a igreja de Nossa Senhora da Penha de Itapagipe, na Penha. Há várias outras ainda, como a do Rosário, a igreja de Alagados ou a dos Mares. Mas isso não foi tudo. Vieram também os bondes, mansões, veranistas, regatas, festas, fábricas, operários, invasões. Aconteceram tantas coisas, que é até difícil lembrar.

Quando teve problemas com o governo, por se negar a perseguir os jesuítas, o arcebispo Dom Botelho de Mattos não hesitou: mudou-se para a sua deliciosa residência de verão, na Praia do Bogari. Lá, desde 1742, além de construir um palacete à beira-mar, ele tinha mandado edificar uma capela onde colocou a imagem de Nossa Senhora da Penha. Nessa mesma igreja, em 1745, foi guardada a imagem do Senhor do Bonfim que o capitão de Mar e Guerra Theodózio Rodrigues de Faria trouxe de Lisboa como agradecimento por haver sobrevivido a uma tempestade em alto-mar. Mas a devoção ao santo cresceu tanto e tão rápido, que foi preciso construir uma igreja apenas para ele. Em 1754, em meio a uma grande procissão, a imagem foi transladada para o seu endereço definitivo: o templo no alto de uma colina de Itapagipe, que se tornou um dos maiores símbolos da fé no país. Quem conta tudo isso é o auditor fiscal aposentado Antonio Carlos Freire de Carvalho, que, além de ter tido a honra de nascer nessa mesma colina, é membro de uma das famílias que há gerações cuidam da devoção ao santo.

A fama de milagreiro do Senhor do Bonfim foi se espalhando – como comprovam os objetos da sala de ex-votos e as telas dos riscadores de milagres – e os fiéis não paravam de chegar. A maioria vinha de barco. Para chegar ao templo, era descer no Porto da Lenha – onde também eram descarregadas as pesadas toras de madeira enviadas do interior para alimentar as fogueiras que iluminavam as festas de janeiro – e subir uma das ladeiras. “Dos mais remotos rincões, levas de peregrinos aportavam no cais e procuravam se acomodar no largo e em torno do templo. Famílias inteiras permaneciam dias ao relento a espera dos festejos”, esclarece a publicação “Dois séculos e meio da devoção de um povo”, editada pela Devoção do Senhor do Bonfim.

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A irmandade tratou não só de acomodar melhor os visitantes, construindo casas ao lado da igreja até hoje conhecidas como “casas dos romeiros”, como fez praças e ruas, como a Avenida Dendezeiros, ligando o Bonfim à Calçada. O cuidado não era só externo, a própria igreja foi transformada num centro cultural: as músicas das novenas foram encomendadas a maestros experientes; os painéis e telas, aos maiores pintores da época, como Franco Velasco e José Theóphilo de Jesus. Mas o ápice das celebrações foi sendo, cada vez mais, a lavagem das escadarias da igreja, como acontece até hoje. Nesse dia, até o dedicado guia “Periquito”, esquece de tudo: “Não perco a lavagem por nada, eu brinco mais do que trabalho”. Mesmo só tendo 10 anos de idade, ele já percebeu que há muito de fé e respeito em meio à brincadeira e balbúrdia: “Ela começou com o pessoal que lavava os azulejos e peças valiosas da igreja. É que os negros não entendiam a missa, que era em latim”, conta ele, para explicar de onde surgiu esse ritual sincrético que mistura água, música e dança para celebrar o santo. Sincrético porque é inegável a semelhança com uma outra procissão realizada nos terreiros de candomblé, na qual todos os participantes vestem branco e carregam um pote cheio de água para lavar o altar do “pai de todos”: a Águas de Oxalá.

Esconderijo de escravos
Banhadas por um mar tranquilo, as praias da península sempre foram usadas como lugar para desembarque de mercadorias e reparo de barcos. Várias oficinas de conserto de barcos foram sendo instaladas. Vem daí também o hábito de fazer dessa área da cidade uma espécie de cemitério de embarcações e mastros, como na avenida hoje chamada Porto dos Mastros. Os pescadores sempre estiveram por ali, especialmente em busca dos cardumes de tainhas, por isso o nome Enseada dos Tainheiros. Mas nem era preciso ir longe, bastava esperar a maré baixar e iniciar a coleta de mariscos nas praias ou nos mangues que dominavam áreas depois aterradas pela população, como os atuais Jardim Cruzeiro e Uruguai.

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Nesse tempo, quando a península ainda era pouco habitada, áreas como Bogari, Caminho de Areia e Ilha dos Ratos serviam como esconderijo para escravos fugidos, explica Carlos Alberto de Carvalho em seu livro “Tradições e milagres do Bonfim”, de 1915. Na época do tráfico livre, conta-se que o desembarque e leilão de escravos aconteciam num casarão na Ponta do Humaitá. Como no resto na cidade, a vida dos negros não era fácil. Eram eles que faziam o transporte de passageiros carregando nas costas, por dois vinténs, as terríveis cadeirinhas de arruar. Depois vieram as traquitanas, explica Carvalho: “Eram caleches pesadas, de rodas muito fortes e eixos salientes e grosseiros, quase sempre tiradas por cavalos, algumas vezes por muares”.

Em meados do século XIX, a opção de transporte marítimo para o centro tornou-se mais regular “com o vapor da Companhia Bonfim e saveiros do comércio para a Boa Viagem”, explica Carvalho. Para as viagens por terra, surgiram as gôndolas, com burrinhos e cocheiros; em seguida os bondes, primeiro por tração animal – o que às vezes obrigava os passageiros a descer e “ajudarem os burros a puxar o carro” -, depois como linha férrea e, finalmente, em 1897, com tração elétrica. São dessa época também iniciativas importantes como a instalação do Hospital Português, perto da igreja do Bonfim, onde ficou de 1866 a 1931. Hoje, lá funciona o Convento da Sagrada Família.

Novos tempos
Mas nada mudou tanto a paisagem da Península de Itapagipe como a chegada da industrialização. Uma conjunção de fatores colocou a península no centro dessa história, como a crise da economia açucareira, que acabou com engenhos e canaviais; a difusão da máquina a vapor e as facilidades de transporte, pois, além do mar, “a partir de 1865, havia o trem, que partia da Calçada, passava pelo Subúrbio e ia Recôncavo adentro”, cita o arquiteto Marcos Paraguassu. Em Itapagipe, inúmeros alambiques se transformaram em novas fábricas: enrolas de fumo, doces e, principalmente, foram surgindo as indústrias têxteis, que deram o pontapé inicial na industrialização do Brasil. Em Plataforma, foi construída a fábrica de Tecidos São Brás. Na Boa Viagem, em 1892, Luis Tarquínio ergueu a sua Empório Industrial do Norte, com uma vila operária modelo, onde seus funcionários tinham direito a casa com jardim, escola para os filhos, creche, médico e biblioteca. A dificuldade era só o exagero na carga horária.

As indústrias têxteis, defendem antigos moradores da região, como Antonio Freire de Carvalho, trouxeram mais vantagens que problemas, pois geraram empregos e não são muito poluentes. Mas, trazendo o progresso, de qualquer forma iniciaram dois fenômenos catastróficos: a ocupação acelerada da península – inclusive através de aterros improvisados, que desviaram o curso de riachos e geraram áreas insalubres, permanentemente sujeitas a enchentes – e estimularam a instalação de novas fábricas, altamente poluentes, que causaram grandes danos. Mas isso só foi acontecer de fato em meados do século XX. Até lá, a península ainda foi frequentada por muitos golfinhos, tartarugas marinhas, veranistas, atletas e, até, por artistas de Hollywood.


VIDA DE BALNEÁRIO

“Itapagipe é uma festa”, diziam e pensavam os seus moradores na primeira metade do século XX. E não era para menos: a Lavagem do Bonfim, seguida da Segunda-feira Gorda da Ribeira, não parava de crescer; a procissão de Bom Jesus dos Navegantes também movimentava multidões e, a cada ano, surgiam novas mansões nos bairros da península para abrigar moradores ou veranistas. Havia dois cinemas – o Roma e o Itapagipe – e uma maravilhosa sorveteria. Também funcionava lá o primeiro aeroporto baiano, um hidroporto, onde eram recepcionados autoridades e artistas de passagem por Salvador. O remo tornou-se o esporte oficial, com direito a regatas concorridíssimas. Quem viveu bem essa época, como Miguel Gesy Lopes, 80 anos, compõe até versos para homenagear a península: “Itapagipe querida / É namorada do mar / És da Bahia a vida / E és a vida a cantar / Itapagipe, Itapagipe / Um sonho de amor ao luar”.

Fotos: Andre Stangl

 

Depois de Garcia D’Ávila e de Dom Botelho de Mattos, muitos outros membros da “sociedade baiana” também moraram ou veranearam na península. Guia de turismo e atual presidente da Associação de Moradores e Amigos de Itapagipe (AMAI), Terezinha Paim enumera alguns casarões e seus ocupantes: “Onde hoje está o Instituto Pestalozzi, morava a família Vita, dos refrigerantes e cristais Fratelli Vita”; no sopé da ladeira do Bonfim, está até hoje o solar da família Marback; havia ainda os Freitas e os Simões. O xodó do bairro é mesmo o casarão que pertenceu a Francisco Amado Bahia, o mais suntuoso de todos, com material importado da França, Itália e Portugal. Sobre o proprietário, um homem de origem pobre que enriqueceu vendendo carne, conta-se que mandava distribuir alimentos para os pobres regularmente. Na sua mansão, o gradil e escadaria de ferro batido impressionam ainda hoje, apesar da casa estar praticamente abandonada. “Mas estamos tentando ver através do Ministério Público o que pode ser feito para dar um destino cultural a esse prédio”, explica Terezinha.

Ricos, pobres ou remediados, o importante é que estavam todos na península, vivendo em função do mar. Quando começava o verão, os rapazes iam bisbilhotar as casas de veraneios para “ver quantas meninas bonitas tinha em cada uma. Nos anos 30, o passeio na praia era diário, todo mundo ia, se cumprimentava. No domingo de manhã, o lazer era o banho de mar em Bogari. As moças usavam um maiô zebrado com saiote por cima. Minha irmã tinha um roupão. Antes dela sair da água, eu trazia ele pra ela se cobrir”, relembra Gesy Lopes, sem conter o riso. À tarde, o programa era a matinê no cine teatro Itapagipe, “que tinha jornal, desenho, curta, dois ou três trailers, um filme ou dois e a série, que era o ápice. Depois a gente tomava o sorvete cantimplora, que era feito à mão e vinha entre duas bolachinhas e íamos passeando até a Penha para ver o pôr-do-sol”. Na volta, sempre na beira do mar, chegava a hora da paquera: “São dois olhos ou duas pérolas?”. “Nossa, nunca vi uma boneca falar!”, cita Gesy, da sua coleção de galanteios.

Foto: Agnes Mariano

 

Vida cultural
Foi logo na virada do século, em 1902, que o remo entrou para ficar na vida da península, com a criação dos clubes e, dois anos depois, da Federação dos Clubes de Regatas da Bahia (FCRB), reunindo o São Salvador, Itapagipe, Vitória e Santa Cruz. Na Bahia, este é o esporte mais antigo entre os que envolvem disputas oficiais. “O remo era mais importante que o futebol. Antes de se definir os dias dos jogos, se consultava a FCRB, para não coincidir com os dias das regatas. Nas regatas, os homens iam de cartola ou chapéu”, narra Antonio Carlos Freire de Carvalho, que, amante e praticante do esporte desde a juventude, fez da sua casa uma biblioteca particular sobre o assunto. Para quem duvida, é visitá-lo e descobrir que ele tem ao alcance das mãos dados como o nome de todos os remadores que participaram de regatas “de 1905, até hoje”.

Além do remo, da península saíram campeões em vários esportes, como basquete e natação. Foi de lá, por exemplo, o primeiro vencedor da travessia Salvador-Mar Grande. Segundo Terezinha Paim, nascida e criada na Avenida Beira Mar, as crianças da península praticamente nasciam sabendo nadar. Sempre em bandos, brincavam de pescar e mariscar na maré baixa e, na maré cheia, nadavam até não poder mais, conta ela, que foi campeã de vôlei. O melhor da relação dos itapagipanos com o esporte, entretanto, é a sua longevidade. “Em 1967, criamos a Liga dos Veteranos da Ribeira”, conta Gesy Lopes. Até hoje, a Liga reúne nos jogos de futebol de praia um bando de animados atletas que já passaram dos 60. No remo, acontece o mesmo: “Um grupo de nove remadores se reunia todo domingo e passava a manhã juntos. Remavam até a Ilha de Santa Luzia, paravam lá e depois voltavam. Todos com 60, 70, um com mais de 80 anos”, conta Freire de Carvalho.

Mas surpreendente mesmo é ouvir as histórias do hidroporto da Ribeira, na verdade, o primeiro aeroporto baiano, na época em que os hidroaviões dominavam a aviação. Segundo Cecy Ramos, que junto com Terezinha Paim coletou as entrevistas sobre o passado de Itapagipe que compõem o livro “Salvador era assim – volume 2”, entre o final da década de 30 e início dos anos 40, pelas instalações luxuosas do hidroporto passaram nomes como Getúlio Vargas e esposa, Carlos Galhardo, Sílvio Caldas e Orlando Silva. Outros moradores não esquecem também da passagem do ator de Hollywood Errol Flynn. Depois de desativado, o hidroporto virou salão de festas e hoje abriga uma marina, restaurante e loja.

Foto: Agnes Mariano

 

Desastre ambiental
A década de 40 trouxe, entretanto, péssimas novidades à península que, sempre receptiva, não soube se defender a tempo. “Trinta e seis fábricas vieram se instalar aqui. Tinha fábrica de tudo: osso, café, sabão, cigarro. Todo mundo foi embora”. Fábricas que sujaram, transformaram, poluíram, intoxicaram. As campeãs de reclamações são a Chadler e a Souza Cruz, que provocavam mal cheiro, fumaça e doenças. A cidade crescia como um todo e o êxodo rural completava o contingente. Em busca de emprego, uma massa humana começou a se deslocar para a Península e Subúrbio. Começaram aí os sucessivos aterros que transformaram a paisagem. Surgiram novos bairros, sendo Alagados, com as suas palafitas, o mais famoso deles. O arquiteto Marcos Paraguassu descreve como funcionava o mercado imobiliário nos anos 70: “As pessoas compravam o lote de água na mão do bandido da área que controlava a cabeça de ponte e vendia também o ponto de luz e água. Depois era subornar os caminhões da Limpurb para ir despejando lixo pra aterrar”. Sobre palafitas, foram erguidas as casas que viraram notícia em jornais do mundo inteiro.

Das fábricas que se instalaram nas redondezas, inesquecível mesmo foi a Companhia Química do Recôncavo (CQR)(1), uma indústria de cloro-soda que, localizada na Península do Joanes, na década de 70 despejou toneladas de mercúrio na Enseada dos Tainheiros, onde estão até hoje. Ainda não são plenamente conhecidas todas as possíveis consequências desse desastre, alertam especialistas como o biólogo Everaldo Queiroz, mas, segundo ele, um dos riscos é o de contaminação pela alimentação, pois pesquisas já demonstraram que os mariscos consumidos pela população local, principalmente o “chumbinho” ou “papa-fumo” acumulam mercúrio de forma crescente até o comprimento de 16,5mm, justamente o tamanho médio mais coletado pelas marisqueiras(2). Autor de uma tese de doutorado na Universidade Federal Fluminense sobre o tema, o biólogo acrescenta que “nenhuma medida oficial para seu controle foi adotada e as medidas em andamento para despoluição da baía de Todos os Santos carecem de competência geoquímica. Estão em risco 70 mil vidas, que vivem do pescado ali capturado”.

Frente a tantos problemas, muita gente preferiu apenas fechar as portas das mansões e partir. Muitas delas estão, até hoje, fechadas ou em ruínas, mesmo localizadas bem em frente ao mar. Mas, como todo baiano autêntico, o itapagipano é, acima de tudo, um otimista, por isso muitos preferiram ficar e, pacientemente, lutar por dias melhores. Hoje em dia, com as fábricas todas desativadas, apesar dos inúmeros problemas que ainda persistem, muitos deles já voltaram a acreditar no renascimento da península.

Foto: Andre Stangl

ESPERANÇA
Todos imaginavam que a catedral escolhida seria uma das suntuosas igrejas baianas cobertas de ouro. Quando souberam que a visita seria na Península de Itapagipe, não houve dúvidas, deveria ser na tradicional e imponente Igreja do Bonfim. Mas nada disso aconteceu. Quando esteve na Bahia, em 1980, o papa João Paulo II escolheu celebrar a sua missa na modesta Igreja de Nossa Senhora de Alagados. Talvez sem saber, ele tocou num ponto fundamental para o desenvolvimento da península: a aceitação e inclusão dos bairros novos, pobres e, ainda assim, itapagipanos. Foi há três anos atrás que a mensagem do papa ganhou vida, num seminário chamado “Um olhar sobre Itapagipe”, reunindo líderes dos 10 bairros que integram a península. “Percebemos que todos queriam a mesma coisa: a melhoria de Itapagipe”, conta Terezinha Paim, presidente da Associação de Moradores e Amigos de Itapagipe (AMAI). Esse grupo nunca mais parou de se encontrar e nem de tomar iniciativas que já estão mudando a cara da Península.

Hoje, a Comissão de Articulação e Mobilização dos Moradores da Península de Itapagipe (CAMMPI), criada em 1999, já reúne 32 organizações dos diversos bairros, explica o administrador regional de Itapagipe, Alberto Paim. Depois do seminário da aceitação, a fase seguinte foi elaborar um diagnóstico dos principais problemas e propor um plano de trabalho para cinco anos. “Em 2000, entregamos esse documento a todos os vereadores e ao prefeito”, explica ele. Começou aí um percurso que ainda está longe de acabar, com reuniões contínuas envolvendo moradores, líderes e representantes de órgãos municipais e estaduais. Como legítimos ocupantes e principais conhecedores da península, os moradores pressionam, acompanham, orientam e comemoram cada intervenção que vai lhes devolvendo uma Itapagipe um pouco melhor.

Foto: Agnes Mariano

 

Entre as vitórias, Paim destaca a unidade de saúde inaugurada no Lobato; uma certa melhoria no controle do lixo que vem de Alagados pelo mar; o condomínio têxtil que está sendo construído no Uruguai num antigo galpão, que promete gerar muitos empregos sem poluir, e a reforma das praças: “A do Uruguai já ficou pronta e as próximas serão a Madragoa e o Papagaio”.

Muito por fazer
A lista de problemas, entretanto, ainda é grande. Terezinha cita os 26 gigantescos galpões abandonados pelas antigas fábricas, que se tornaram ruínas em meio às residências, servindo como foco de dengue, lixo, entulho e esconderijo de marginais. Ou, pior até, sendo usados como depósitos de material inflamável, tornando-se assim verdadeiros barris de pólvora. “Temos dois núcleos de depósitos de produtos químicos: a Calçada e a Avenida Luis Tarquínio”, enumera Alberto. Em 2001, o incêndio na Boa Viagem mostrou o tamanho do risco que a população corre, mas ainda não foi suficiente para que o problema fosse resolvido. A AMAI está com um processo junto ao Ministério Público para tentar resolver a situação.

A poluição do mar é um problema grave e complexo. Além dos resíduos tóxicos deixados pelas fábricas, são 160 mil habitantes numa área de 697 hectares. E uma parte deles, há gerações, vem fazendo do mar um depósito de sujeira. “O Programa Baía Azul retirou 76 bocas de lobo que desaguavam na Praia de Bogari”, comemora Terezinha. Só que ainda há muito para ser feito. Segundo o coordenador de avaliação do Centro de Recursos Ambientais (CRA), José de Lacerda, Penha, Boa Viagem e Bogari já são consideradas praias próprias para banho, “em função das intervenções saneadoras, mas áreas como Pedra Furada, Roma e Cantagalo ainda são impróprias”. A população, indiferente, mergulha e pesca em qualquer trecho, a qualquer hora.

Foto: Andre Stangl

 

O grande sonho agora é desenvolver o potencial turístico, pois a península permanece esquecida até na divulgação oficial. Com a reforma do calçadão da Ribeira e um “certo” disciplinamento das barracas, os itapagipanos ganharam de volta a possibilidade da caminhada matinal e os visitantes, a chance de ver o mar. As metas são resgatar festas, organizar artesãos e, principalmente, divulgar o que sempre existiu e continuando existindo de bom e belo, como o pôr-do-sol na Ponta do Humaitá ou na Avenida Constelação, na Pedra Furada, o sorvete de coco verde da sorveteria da Ribeira ou a história de Irmã Dulce, a freirinha valente que viveu e trabalhou na Península. O Memorial em sua homenagem – situado no Largo de Roma, em um prédio vizinho ao hospital que ela criou – recebe milhares de visitantes anualmente(3).

O muito que restou
A comprovação de que, apesar de tudo, a Península continua valendo a pena, vem do carinho que as novas gerações nutrem por ela. Pois são pessoas que não viveram o tempo áureo, o glamour, a época de praias limpas e livres, quando ainda era possível nadar ou praticar o remo sem esbarrar a cada metro nas embarcações que insistem em desrespeitar, impunemente, a raia de remo doada à Federação dos Clubes de Regatas da Bahia (FCRB) há mais de 100 anos. Para esses jovens, apesar de tudo, a Península ainda é uma inspiração, um porto seguro, um estímulo à superação de desafios, seja através da arte, como fazem os jovens do grupo Bagunçaço, que surgiu no Uruguai e já ganhou o mundo, ou do esporte, como fez Marilene Barbosa, 31 anos, vice-campeã sul americana de remo.

“Comecei indo assistir às regatas com meu irmão. Ele entrou no remo e eu quis também, mas me disseram que mulher não podia. Achavam que as meninas iam só pra ver os rapazes, essas coisas. Um tempo depois, eles mudaram de ideia e me chamaram”. Sozinha em meio a tantos homens, Marilene não se intimidou. Remava e remava, diariamente. Como todos os outros atletas, às 5h da manhã já estava dentro do mar tranquilo que banha Itapagipe, indo em direção à ponte São João. O prazer de ficar ao ar livre, no mar, é tão grande que ela sequer vê sujeira, poluição. “Só dos barcos que ficam reformando na praia e jogam pau, prego, garrafas na areia e bloqueiam a passagem”, enumera ela, citando um problema apontada por 10 entre 10 moradores da Ribeira, que adorariam ver todas as marinas indo embora de lá.

Foto: Agnes Mariano

 

Para Marilene, o que faz da Península um lugar especial é o clima aconchegante: “Você virou, está no mercado, na padaria, na praia, na sorveteria”. Tão aconchegante que desacelera o passo dos seus habitantes e faz até os visitantes, por alguns minutos, esquecerem suas correrias e confusões. Aliás, essa também é a opinião de outro morador, Miguel Gesy Lopes, que gosta de usar o mar como símbolo desse acolhimento tão baiano, tão itapagipano: “Aqui na península entra um braço de mar que nos abraça. Ele faz a curva e nos aperta no coração dele”, poetiza Gesy. Já para o pequeno guia Periquito, 10 anos, que pouco sabe de tantos problemas, a Península é, acima de tudo, o seu mundo. Do alto da colina sagrada, ele olha para Salvador ao longe e explica ao visitante: “Lá, é onde vivem os ricos”. Diz isso sem rancor, inveja ou saudosismo pois, no fundo, já sabe que, rico mesmo, é quem, como ele, pode sentir-se parte de um lugar.

Notas

1  Comprada pela Braskem, do grupo Odebrecht, e ainda em atividade no Polo Petroquímico de Camaçari, na Rua Oxigênio, 765.

2 O acidente mais famoso envolvendo contaminação por mercúrio foi o da Baía de Minamata, no Japão, que provocou a morte ou danos à saúde de milhares de pessoas. Entre os efeitos provocados pelo consumo de peixes contaminados estão: deformação nos pés e mãos, danos à visão, audição, paralisia, surtos de psicose e morte. Muitas das vítimas foram contaminadas durante a gestação.

3 Em abril de 2009, o Papa Bento XVI declarou Irmã Dulce como Venerável, o que deve facilitar o processo de beatificação, iniciado em 2000.

Publicado em: CIDADE