Os habitantes de uma avenida da Península de Itapagipe, encravada entre a baía de Todos os Santos e o chão firme da Ribeira
Texto e fotos: Tom Correia*
Dia útil numa manhã de março. Caminhar por uma rua estreita que margeia pequenas ondas é um prêmio concedido aos privilegiados que conseguem tempo livre. O silêncio, a calmaria e as imagens que a avenida Beira-Mar oferece aos passantes formam uma receita de rara combinação, válida apenas de segunda a sexta: nos fins-de-semana o refúgio é depredado por gente vinda de toda parte em busca de diversão barata.
Fora dali, Salvador ferve a 460 graus. Aniversário e atmosfera da cidade se confundem com uma mística ultrapassada. A urbe ressentida de ausências já não proporciona mais a mesma tranquilidade. O indivíduo ordeiro de tempos atrás, agora pode ser uma ameaça oculta nas esquinas. O tráfico que se multiplica e se fortalece. O trânsito que asfixia. A saúde que desassiste e ignora. A população deselegante que rega becos, muros e postes com líquidos pouco nobres. O transporte público obsoleto que carrega os passageiros como fardos. O desemprego que humilha.
A Beira-mar é uma via de escape, acesso a locais que mantêm natural ligação com o passado. Da Penha à Baixa do Bonfim, do Largo da Ribeira à Madragoa, do Banco dos Vadios à “Ponte” do Crush, cada um possui seu próprio brilho. Acolhedora, a rua plana permite testemunhar a dedicação do funcionário público que cuida do seu barco como um filho enfermo. Ali se vê o riso otimista dos vendedores das barracas ainda vazias, o carrinho de pipoca que também suspira à espera de clientes. Pelo caminho, encontra-se um garoto que trata o peixe com habilidade e desenvoltura. “Aprendi olhando”, ele revela com a simplicidade dos pescadores. Mais adiante, avista-se um homem que carrega gelo sem tempo para admirar as ilhas do outro lado.
Quem navega pela avenida e ancora em algum dos seus portos recebe o vento no corpo e dificilmente se recupera: há quem plante o pé e compre uma casa. Há quem retorne compulsivamente para revigorar a alma.

Praia do Bogari, Ribeira, antigo local de veraneio da sociedade baiana

Barco com avarias, mecânico atento

Precisão no reparo em nome de futuras navegações

Luz de segurança num mar de almirante

Criado em 1940, o banco dos vadios é ponto de encontro de boêmios que não ingerem bebida alcoólica

Na labuta sob o sol, o picolé que ameniza o calor

Em frente ao colégio, a pipoca aguarda os clientes mais assíduos

Otimistas, Jade e Tata esperam à sombra pela clientela

Apenas nos dias de semana a praia parece feita para poucos

Solitário no fim da feira, Cristiano trata o pescado do dia

Não é fácil, mas ainda dá pra tirar algum do mar

Força e agilidade para destrinchar a arraia

Gelo que chega do subúrbio para abastecer pescadores

Quem nasce aqui não tem coragem de ir embora...

Sob o céu de meio-dia, trabalho e diversão convivem lado a lado
* Escritor e fotógrafo. Prêmio Braskem de Literatura 2002 com o livro Memorial dos medíocres (Editora Casa de Palavras). Colunista da revista eletrônica Verbo21. Edita o blog A caverna do escriba e colabora com a Soteropolitanos.
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