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Viagem ao remo de Itapagipe

A tradição, os tempos áureos, a realidade decadente e os dias vindouros do esporte na península.
por Murilo Alves

Desponta uma alvorada em Itapagipe. São 4h22. Sobre as águas calmas do mar da Ribeira, repousam 12 escunas e cinco barcos de pesca. Há um deserto na Av. Beira Mar, a altura do Porto dos Tainheiros. Nem mesmo os primeiros ônibus começaram a circular. Pode-se tocar o silêncio, ouvi-lo, inclusive, tamanho o aspecto sereno e a mansidão proporcionada pelo quebrar das ondas na costa da praia. Os ares da península exalam o contraste dos tempos e o charme fascinante de um dos lugares mais tradicionais de Salvador. Trata-se do berço e da morada do remo na cidade.

Antes disso, às 4h, há o caminho a ser feito a pé do Bonfim até a Ribeira, por meio da Av. Caminho de Areia. Raros são os carros que circulam a esta hora. As luzes refletidas pelos postes ainda fazem efeito no asfalto irregular. Os poucos pedestres que se cruzam olham-se com medo, cena incomum na Itapagipe do início do século XX, quando a violência urbana na região era apenas uma triste fábula. São alguns dos acontecimentos que antecedem a visita a realidade dos clubes de remo da Península. Defronte ao Hotel Ribeira, um travesti interrompe os meus passos rápidos e eu temo ser assaltado. Em seguida, me pede R$ 0,50 para comprar um lanche. Dou-lhe algumas moedas e digo ser tudo o que tenho. Ele agradece e me deseja um bom dia. Prossigo mais calmo em minha jornada.

Estar sobre as calçadas da Av. Mem de Sá remete a uma viagem no tempo. Era o final do século XIX e o início do XX. Neste período, foram fundados os quatro principais clubes de regata do Estado da Bahia: São Salvador, Vitória, Itapagipe e Santa Cruz. As mesmas agremiações permanecem sediadas na Ribeira, relativamente próximas umas das outras. Segundo o arquivo histórico da Federação Baiana de Remo e matérias de jornais da época, esta prática esportiva já nasceu elitista. Naquele contexto, os próprios filhos das classes abastadas de Salvador faziam questão de financiar as práticas náuticas da cidade.

Milhares de pessoas lotavam não só as imediações do Porto dos Tainheiros, local das competições, mas até mesmo o tráfego de veículos era interrompido desde o Largo da Madragoa, devido à multidão que se aglomerava para ver os remadores. Os homens vestiam paletó de linho branco e calça de riscado, enquanto as damas exibiam os chapéus franceses da época e os longos vestidos da moda européia, mesmo sob o sol escaldante de Salvador. Era um luxo só. O remo em Itapagipe era tão concorrido como o futebol. Tratava-se de um grande acontecimento.

Tempos de crise
Com o processo migratório da alta sociedade de Salvador, que passou da Cidade Baixa para a orla, os investimentos destinados ao remo de Itapagipe ficaram escassos. Os clubes passaram a custear os gastos com dinheiro do próprio bolso. Salvo os raros auxílios oriundos do poder público. Realidade, aliás, que perdura até os dias de hoje. Para o técnico da equipe de remo do Esporte Clube Vitória (atual tetracampeão baiano), Antônio José Silva Santos, o “Toinho”, “há uma falta de cultura dos empresários para investir no remo da Bahia”. Dessa forma, o remo baiano hoje é apenas figurante na Taça Brasil, isso quando a disputa, o que fez crescer a indesejável fama de “eterno vice” na Copa Norte/Nordeste.

Dos quatro clubes itapagipanos, o Vitória é o que vive dias melhores, graças às verbas destinadas ao futebol do rubro-negro, pois uma pequena parte é aplicada também no esporte amador. As demais agremiações dependem do que arrecadam junto a Federação Baiana de Remo, Federação dos Clubes de Regatas de Itapagipe e eventos como jantares.

A última atenção da prefeitura de Salvador para o remo de Itapagipe ocorreu em maio do ano passado. O palanque para as autoridades foi reformado e o prefeito João Henrique doou um barco de fibra de carbono no valor de R$25.000 para cada um dos quatro clubes de regatas.

Tristeza de campeão

Segundo a lenda viva do remo na Península, Jorge Radel, 86, multicampeão nas raias da Ribeira na categoria four skiff (quatro tripulantes com timoneiro), não houve renovação na mentalidade dos dirigentes do esporte no Estado. “Hoje o remo está morrendo, antes, a sociedade tinha paixão, era só eu pedir auxílio para o governador Luís Viana Filho que as verbas chegavam na hora”.

Radel, “o diabo louro”, ainda comparece à Ribeira em dias de regatas, acompanhado pelo filho. Ele considera o nível técnico dos atletas de hoje “deveras inferior” ao do seu tempo e estende a mágoa sobre a diretoria de futebol do Vitória (clube do qual é o conselheiro mais antigo): “No futebol só tem mau-caráter, eles isolam o remo num canto”.

Rotina de treinamentos
Quinta-feira, 4h33. Os próprios remadores do E.C. Santa Cruz trazem os remos e as embarcações para a praia, a fim de iniciarem a preparação para a penúltima etapa do campeonato baiano. Passam-se três minutos e o primeiro doublé skiff (para dois atletas) do São Salvador já está no mar.

São 8h de treinamentos diários de domingo a domingo. Pela manhã, os treinos vão até às 7h, pois muitos dos atletas precisam ir para o trabalho. Inexiste remuneração para os competidores. Eles praticam o remo com o máximo de dedicação e por puro amor ao esporte.

Herança de elite

Nenhum dos clubes possui escolinha para as crianças da região. O diretor de remo do Vitória, Carlos Romel, afirma que os altos custos de manutenção dos barcos que o esporte exige, fariam com que as mensalidades beirassem o custo de R$50, o que mantém a imagem do remo como a de um esporte de elite.

Os olhos do estudante Pablo Santos, 10, brilham ao acompanhar, de longe, as remadas dos atletas do Vitória. Ele confessa que adoraria ter a oportunidade de remar: “Eu queria aprender, mas acho que eles não deixam”. Todavia, os principiantes entre 14 e 16 anos que ingressam no remo para competir, são admitidos para os treinos em todos os clubes.

Remo do futuro
Praticamente com o pentacampeonato baiano assegurado com uma regata de antecedência, os atletas rubro-negros só pensam na Copa Norte/Nordeste a ser disputada no Pará, no mês de novembro. Para tal, o remador categoria “sub-23” Luís Daniel de Jesus, 20, eleito o melhor do ano passado pela FBR treina de forma exaustiva no ergômetro – aparelho de musculação semelhante ao barco, presente em todos os clubes.

A coordenadora da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (SMEL), Adriana Molin, estuda políticas de incentivo à prática do remo, além de buscar apoio de pequenas e médias empresas para investirem no esporte. Ela afirma que “tende a haver um interesse maior da sociedade em prol do resgate do remo em Itapagipe”.

É o que os itapagipanos esperam. Dias melhores para o remo, porque a realidade atual dos clubes de regatas da península é dura e desoladora. Faltam investimentos e sobram dívidas para as equipes. Até porque se alguém já falou que “navegar é preciso”, pode-se dizer que lá pela Ribeira, remar também é preciso.
(novembro de 2006)

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