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Um lugarzinho a beira mar

por Roberta Trindade

Situada na Península de Itapagipe, com vista privilegiada para a Baía de Todos os Santos a Ribeira já foi um bairro nobre de Salvador muito usado para veraneio. Lá moravam importantes famílias e personalidades como a cantora Simone, o senador Antônio Carlos, o professor Amado Bahia – hoje há um colégio com seu nome na casa de arquitetura francesa onde ele morava -, o deputado Marcelo Guimarães e os atores Otton Bastos e Joaquim Nabu. Esse paraíso atraiu também pessoas como o espanhol Manoel Martins, 70 anos, e sua esposa, a professora Isabel Martins, que começaram como moradores e, em 1972, com influência de um tio, fundaram o bar Catraia, um dos mais famosos do bairro.

O nome foi escolhido em homenagem a alguns barcos que fazem parte da paisagem do bairro. O Catraia se situa até hoje na Avenida Beira-Mar, com vista para o mar. Começou como uma “portinha”, um corredor que tinha uma pequena cozinha ao fundo, um balcão e algumas mesinhas na frente, servindo comidas típicas de bar: ovos coloridos, bolinhos de bacalhau, batatas fritas. Com o tempo o bar cresceu, se ampliou e virou um bar-restaurante, passando a servir caças – que, posteriormente, pararam por causa da proibição da prática pelo Ibama – e comida baiana.

A história de Seu Manuel é parecida com a dos europeus que vieram para o Brasil. Com 18 anos, veio da Espanha, em seis dias de viagem em um navio, por imposição de seu pai, que mandou o filho escolher entre o Exército ou o Brasil. Seu Manoel ficou com a segunda opção e veio morar com uma tia. Com 25 anos, casou com uma brasileira e teve dois filhos, Carlos, 43 anos, e Manuel, 39, que trabalham com ele no Catraia.

Em 32 anos trabalhando em um bar, seu Manoel e seus filhos já conheceram muita gente e viram muitos coisas acontecerem. Histórias como a dos amigos Sérgio e Fabiana, freqüentadores do Catraia, que se conheceram graças ao bar e são casados até hoje. Episódios como a da amante, de nome não revelado, que levou uma “moquecada” (banho de moqueca) quando a esposa chegou ao bar e a viu com seu marido. Ou a do lutador de boxe Evander Rolifield, que comeu uma “calderada”, mistura de mariscos para quatro pessoas, sozinho.

Malucos, bêbados, amigos de faculdade, artistas, boêmios, casais, famílias, o bar é um lugar onde aparece “tudo que é gente”, por isso que ser dono de bar é um grande aprendizado. Segundo Carlos, filho de Seu Manoel, para trabalhar em bar é preciso ter muita paciência, principalmente no balcão, onde algumas pessoas desabafam e podem passar a noite contando suas vidas e seus problemas. Carlos acredita que a solidão atrai essas pessoas para o bar, onde elas buscam fazer amizade ou afogam as dores no álcool. Ele chama essa relação entre o cliente e o balconista de “etílicoterapia”.

Transformações

Atualmente o bairro ainda encontra suas forças na bela orla e em alguns estabelecimentos famosos como a Sorveteria da Ribeira, bares como Alcatraz e Catraia. O comércio tomou conta da orla, apenas algumas casas permaneceram, como a da família do artista Moisés Cafezeiro, fundador do “Jegue trio”. Até o próprio Seu Manoel mudou-se para a Pituba, “para ficar mais perto do trabalho da esposa e da escola dos filhos”. Ele fala entristecido que os antigos moradores da Ribeira já se foram e os que restam “podem ser contados nos dedos”.

Dos anos de ouro do Catraia, seu filho Carlos lembra com saudades, um tempo que o Catraia era um dos únicos bares da Ribeira e que ficava aberto até 5h da madrugada, com movimento e lucro, os torneios de futebol eram feitos na praia quando a maré vazava e no final muitos iam no bar do Seu Manoel tomar uma cerveja e comentar o jogo. Carlos, afirma que muitas amizades foram feitas no tempo da liga.

Hoje, o Catraia enfrenta a alta concorrência e o medo de assalto, fecha mais cedo e o lucro não é como o dos primeiros 15 anos. Mas, mesmo com as dificuldades, o bar resiste, e continua marcando a história da Ribeira e a vida dos que passam por lá, como o falecido ator Lelo, que durante a sua peça, “A Bofetada”, citou o Catraia e um porre que viveu lá.
(junho de 2004)

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