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Tabuleiro da resistência

por Murilo Alves

Bolinho de estudante, acarajé e abará. Se tais quitutes são capazes de despertar o apetite de boa parte dos baianos, pode-se dizer que esses elementos tão presentes na culinária da Bahia adquirem um valor simbólico especial quando ganham forma por meio das mãos de Valdete Pereira dos Santos, 59, a popular “Val do Bonfim”.

Natural de Nazaré das Farinhas, no interior do Estado, onde morou até os 16 anos com os pais e 18 irmãos, em uma casinha de barro forrada com pedaços de lona e de papelão, dona Val foi a responsável não só pela criação dos demais filhos de Edinaldo Garcia Pereira e Elisabete dos Santos Pereira, o primeiro, caseiro de uma fazenda da tradicional família Falcão, enquanto que a segunda era dona-de-casa, além de lavar roupas para terceiros, no intuito de ajudar no sustento da família.

“Tinha dia que a gente passou mesmo foi fome. Mainha fazia uma mistura com farinha e café para nós tudo, 18 irmãos”, afirma dona Val, com a voz embargada e lágrimas nos olhos. Atualmente, ela mora no bairro da Pedra Furada, em Salvador, próximo da Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, onde coloca o seu tabuleiro diariamente há 25 anos ininterruptos.

Após a morte dos pais no interior, Valdete e os irmãos resolveram migrar para a capital, dividindo-se entre as casas dos tios e primos que já moravam em Salvador, pois assim, segundo ela, haveria mais oportunidades para buscar dias melhores, realidade que começou a vingar na década de 80, quando dona Val passou a aprimorar uma herança que foi sendo transmitida entre as mulheres da família: a fazenda de especiarias originárias do continente africano, mas tão típicas da cultura baiana, a exemplo do acarajé (acará, que em iorubá significa “bola de fogo” e jé “comer”) e do abará.

Desde então, dona Valdete já havia se dado conta de que os anos em que foi privada dos estudos, em decorrência do fato de ter que ajudar os pais na criação dos irmãos, seria uma adversidade considerável para que conseguisse um trabalho bem remunerado, como em uma empresa, sendo doutora ou exercendo algum cargo de maior status diante da sociedade. A solução encontrada não poderia ser diferente: o ofício ensinado por dona Elisabete seria posto em prática até os dias de hoje.

Mas para chegarmos aos dias atuais, “muita água já passou debaixo dessa ponte”, provérbio popular constantemente reproduzido pelos lábios dessa senhora negra, de corpo frágil, rigorosamente vestida a rigor para exercer a profissão que adotou com muito amor e orgulho, estimulada também pelas circunstâncias de uma vida difícil, mas ainda bela, apesar de tudo.

A beleza proporcionada pelo contraste da cor branca do pano de torso, do turbante e das saias rodadas em contraposição com a tonalidade escura da pele de Val chama a atenção. Em algumas horas de descontraída conversa diante da Igreja do Nosso Senhor do Bonfim – ponto do ganha-pão dessa ilustre mulher do povo, a companhia do cigarro barato (apesar de um recente enfarto) na mão canhota de dona Valdete não pôde passar despercebida, tradução em gestos de “Maneiras”, samba preferido por ela, que se orgulha de ser uma das primeiras associadas do bloco carnavalesco “Alerta Geral”.

Em um dos versos da composição do sambista carioca Zé Roberto, interpretada por Zeca Pagodinho, a letra diz: “Se eu quiser fumo eu fumo/se eu quiser beber eu bebo/pago tudo que eu consumo com o suor do meu emprego”, é o que dona Val costuma chamar de “filosofia de quintal”, ou seja, aquele tipo de ensinamento que não é assimilado na universidade, mas na vivência do cotidiano.

Distante da mídia
Ao contrário de algumas colegas de profissão, tais como Regina, Dinha e Cira, todas que gozam de considerável renome na mídia baiana, dona Val se mostra um poço de humildade ao afirmar que admira e respeita o trabalho de todas as baianas de acarajé, sem distinções, independentemente da atenção destinada pelos meios de comunicação da cidade: “eu fiz minha vida aqui fritando acarajé e cortando coco, não faço questão de aparecer na TV para ganhar o meu respeito, mas sei que só faz esse trabalho quem ama muito”, disse. Ela permanece morando de aluguel em uma casa com banheiro, sala e apenas um quarto pequeno, onde divide a única cama com a neta Marília, 12, que também ajuda a avó nas vendas de água mineral e refrigerante: “minha vó foi que me criou, eu gosto muito de minha mãe, mas eu considero mais minha avó”, afirma a neta mais velha de um total de seis, entre as duas filhas de Val.

Negona nota 10
O Bonfim é um bairro tradicional de Salvador não – somente pela presença da construção do símbolo mais famoso do sincretismo religioso no Estado – a Igreja do Bonfim, mas também por conseqüência da longevidade e do bairrismo de seus moradores, que dificilmente migram para a o centro ou para a orla da capital. Para um de seus moradores mais antigos, o vendedor de camisetas Albérico Alves de Almeida, 89, “a baiana Val é um presente que Nazaré das Farinhas mandou para alegrar quem vive no Bonfim”.

Seja entre os vendedores ambulantes de cafezinho, de peixes ou frutas, além dos moradores de outros pontos da cidade que visitam o bairro para assistirem às missas de sexta-feira, dona Val chega a se cansar de tanto responder as chamadas das pessoas que a cumprimentam, enquanto prepara a massa para a fritura no dendê: “rapaz, eu vendo minha fitinha do Senhor do Bonfim aqui faz mais de ano, e essa baiana ta sempre aí, faça chuva ou faça sol, nunca nega nada para os vendedor, a negona é nota 10”, comenta o vendedor Carlos José dos Santos, 32, há 12 anos trabalhando próximo a Val.

Rotina de Lutas
Valdete trabalha de terça-feira a domingo, inclusive feriados, na parte alta da “colina sagrada”, abaixo de um guarda-sol de cor laranja, doado recentemente pela Prefeitura. É o seu sobrinho Sotero Pereira, 30, quem tem o trabalho diário de subir a ladeira com o balaio de palha onde a tia guarda a mercadoria para as vendas em uma bicicleta “sem marcha e sem freio”, como o rapaz costuma dizer, aos risos.

O galo ainda nem cantou às 5h, momento exato de todos os dias em que o despertador de dona Val se manifesta para acordar a responsável pela renda da família. Ela aproveita para ralar o coco e separar o amendoim para produzir as famosas cocadas postas a disposição dos clientes em seu tabuleiro. Duas horas depois, Valdete tem a difícil missão de acordar a neta Marília, pois se aproxima a hora do colégio: “eu não tive como estudar, mas não quero que a minha neta passe a vida toda cortando coco como eu”, confessa, em um dos muitos relatos em que se é difícil controlar a emoção. Às 9h, a baiana Val assume o seu posto defronte a igreja, até o final do dia.

Mãos de Iansã
As mãos calejadas de dona Val são também conhecidas por turistas de todo o mundo, acostumados a retornarem a Bahia todos os anos para pagarem as promessas que fazem ao Senhor do Bonfim, sempre que alcançam suas graças: “tem gringo dos state, alemão, como é? Casal de argentino que fazem questão de pedir a benção pra mim sempre que estão aqui. Essas mãos de Iansã tem feitiço meu filho, eles sempre voltam”, afirma, devota do candomblé.

São também as mãos responsáveis por um tabuleiro da resistência da afrobaianidade, da mulher solteira, de uma grande figura do povo e da cultura de Salvador, da Bahia e de todo o Brasil. Valdete Pereira dos Santos, a Val do Bonfim, pobre em sua condição financeira, guerreira, negra, síntese maior da garra e da força da mulher brasileira.
(novembro de 2006)

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