Um passeio pela Cidade Baixa mostra como se pode comer bem e conhecer uma parte de Salvador quase esquecida
por João Paulo Grande
Quem pensa que os únicos atrativos da Cidade Baixa são a Igreja do Bonfim e a Ponta do Humaitá está muito enganado. A infinidade de bares e restaurantes na Península Itapagipana nos convida a conhecer um pouco sobre uma área muito tradicional de Salvador, porém, esquecida pela população. Fazendo um tour pelos bairros, se constata que a diversidade dos bares e o clima de cidade do interior dão um tom diferente na qualidade da comida.
O primeiro passo é experimentar um tira-gosto famoso: pirão de aipim com carne do sol. Os mais famosos são os do Estaleiro, local onde fica a fábrica abandonada Tóster Barreto. Podemos dizer que é um big tira-gosto. Um tacho de barro cheio de pirão de aipim, coberto de carne-de-sol cortadinha e vinagrete por apenas R$ 6. A carne não é das melhores, mas o pirão é muito bom. Falta estrutura, é verdade, mas vale a pena curtir o visual do lugar – vista para o mar e de frente para Madre de Deus e Ilha de Maré – e tomar uma cervejinha super gelada nos fins de tarde.
Seguindo pela Avenida Beira-Mar, encontram-se vários barzinhos e restaurantes de frente para a praia da Ribeira. Um deles é o Catraia, o mais antigo do local. Os donos são uma família de espanhóis que há mais de 30 anos estão no lugar. “Se não fosse de minha família já teria partido para outro negócio, isso desgasta muito”, exclama Manoel Perez Filho, 38 anos. O ambiente é muito agradável e calmo. A comida é boa e o carro chefe é a caldeirada. O prato tem a mistura de Espanha e Bahia, com nove frutos do mar, temperos variados e a opção de ser cozida no azeite de dendê ou molho de tomate com leite de côco, o que faz lembrar muito a paelha. É servida, ainda fervendo, em uma travessa grande. O cheiro é sensacional, só que o preço da delícia é um pouco salgado: R$ 45.
Belo visual
Depois da Ribeira, voltando pela Beira-Mar e subindo a Ladeira do Bonfim se chega à Ponta do Humaitá. O local é lindo, agora pavimentado, limpo e com policiamento durante o dia todo. Adultos e crianças transitam pelo lugar que, no futuro, será um dos pontos da via náutica de Salvador. A brisa do mar e a bela paisagem fazem do Humaitá um dos mais belos pontos turísticos da cidade.
Ao sentar em um dos dois bares que existem por ali, nota-se peculiaridades no estabelecimento. O bar leva as cores e o nome do bairro onde fica o time do Boca Juniors na Argentina – La Boca – e é decorado com fotos de Maradona, Caniggia e Batistuta, ex-craques desse time. Depois que o pedido é feito ao garçom, o dono do bar vai pessoalmente entregar o prato ao cliente e pergunta: “Tudo bien?”. Ele é Carlo Mariano Gonzáles, um argentino de 47 anos, há 12 morando na Bahia. O cardápio, genuinamente baiano, traz opções de tira-gostos e comida de qualidade com preço bem camarada. González fala de seu negócio e de como pretende explorar o turismo local oferecendo serviços: “Daqui a um mês e meio monto um café-net aqui para o pessoal que vem de fora ter mais um atrativo”, conta, gastando o seu portuñol.
Tradição
Em se falando de gastronomia, o lugar mais conhecido da Cidade Baixa é a Sorveteria da Ribeira. Muito visitada por moradores de outros bairros, essa sorveteria, inaugurada em 1931, mesmo depois de passar por muitos donos diferentes ainda se mantém forte e tradicional como antes. Com um cardápio oferecendo mais de 10 sabores de sorvete, o mais procurado ainda é o de côco. O preço é bom, visto que a qualidade do produto é indiscutível. Turistas sempre visitam a sorveteria, como a carioca Andréia Santana, 26 anos, que, quando vem a Salvador visitar os parentes na Barra, sempre passa na Ribeira para tomar um sorvete. “Toda vez que venho, passo aqui e tomo um sorvetinho de côco. É muito bom, lá no Rio é bem diferente daqui”, afirma.
Outra boa pedida de fim de tarde é o famoso acarajé das Linhas Corrente, da baiana Jandira. Localizado ao lado da antiga fábrica Linhas Corrente e do Bom Preço na Avenida Imperatriz, o acarajé da baiana Jandira fica lotado de segunda a sábado, sempre das 16h às 21h. Idosos, crianças e adultos, em pouco tempo, acabam com o abará e o acarajé vendidos aos montes. Para os desavisados, uma informação: é preciso chegar cedo se quiser comer o quitute, que, com certeza, é um dos melhores da Bahia e está no mesmo ponto há mais de 15 anos.
Comunidade de pescadores
Próximo ao Humaitá fica uma localidade chamada de Pedra Furada, bem escondida e com apenas uma via de acesso. Lá existem nove restaurantes especializados em frutos do mar. O mais famoso e antigo é o da Tia Maria, que leva o nome da proprietária e é visitado por turistas estrangeiros, profissionais liberais e artistas, como Paulinho Boca de Cantor. A dona se orgulha da clientela e diz que a fama vem da boa comida e também do atendimento. “Aqui a gente preza pela qualidade e não pela quantidade”, relata Tia Maria, que há mais de 25 anos está no local. O cardápio é muito variado e a qualidade é das melhores, visto que a comunidade é de pescadores e as iguarias vêm até a porta do restaurante para serem vendidas bem fresquinhas.
O ambiente é muito agradável e bonito, com vista para o mar e o forte do Humaitá à distância. Ao entrar no local vemos a decoração com fotos de Bob Marley, Charles Chaplin e Che Guevara. “Isso foi meu filho que colocou”, fala Maria, que se orgulha de ter formado os dois filhos com os recursos do trabalho em seu restaurante. Os tira-gostos são excepcionais. Uma porção de agulhinhas fritos (peixe pequeno e fino) sai por R$ 7 e cai muito bem com uma cervejinha gelada. Pratos com lagosta, polvo e camarão também são muito pedidos.
(junho de 2003)
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