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Mercado do Ouro ainda tem seus encantos

por Andréia Santos

Portas caídas, portão de entrada entregue aos ratos e baratas, moscas arrodeando o lixo que é jogado no local. É assim que a antiga entrada do Mercado do Ouro se encontra. O nome pintado de forma artística, hoje está apagado. Só reconhece o lugar quem já conhecia antigamente.
A porta do fundo agora é a entrada, que fica localizada na Avenida Jequitaia. A mudança aconteceu devido à decadência do lugar, que tem hoje cerca de 107 anos de existência. O prédio de numero 02, tinha sua entrada na rua do Pilar, que cerca a praça Marechal Deodoro no bairro do Comércio.

O espaço de 7.500 metros quadrados comporta 100 lojas que são divididas em tamanhos diferentes, algumas com frente para rua e outras internas, cada uma com seu próprio banheiro. Os inquilinos escolhem as lojas de acordo com o preço e a localização. O que se comercializa em cada box do mercado fica a escolha do locatário. Mas antigamente o que predominava eram alimentos não perecíveis, cereais, especiarias e ervas de todos os tipos.

Os freqüentadores de antigamente não são mais os mesmos. Rosilda Santos, 62, vinha antes comprar ervas para preparar seus chás. Hoje, segundo ela, não se encontra mais quase nada. “O mercado tá acabando, a única loja em que ainda venho comprar é a loja que vende essências de produtos. Aqui acho de tudo, talco, alfazema, alecrim e muitas outras. A vantagem que é mais barato”. Assim como Rosilda, ainda há os freqüentadores antigos e fiéis. Os jovens, que não conheciam o mercado antigamente, freqüentam apenas as lojas de frente para rua, os restaurantes e as lachonetes.

Mesmo divulgando o comércio interno, as pessoas ficam com receio, pois a entrada, que antes era a porta do fundo, é escura e a pintura da parede está tão decadente, que assusta quem tem vontade de subir as escadas que levam ao primeiro andar. Segundo Antônia de Jesus, 51, auxiliar administrativa do mercado, hoje tem apenas 26 lojas funcionando, 23 externas e três internas, todas alugadas, inclusive o ponto de Seu Juarez, que tem a fama de oferecer o melhor filé da Bahia. “Os preços dos aluguéis variam, vão de R$ 300 à R$1.000, depende do tamanho e da localização. Claro que os de frente para rua tem os valores mais elevados”, disse Antônia em relação as lojas alugadas. Atualmente se encontra uma variedade de lojas no mercado, como loja de produtos químicos, oficina de ar-condicionado, de carro, oficina de pinturas e letreiros, escritório de contabilidade, ponto de café que fornece aos bancos do bairro, restaurantes, lanchonetes.

Antigo mercado
Fundado no ano de 1879, o Mercado do Ouro, de propriedade particular, recebeu esse nome devido ao local, que era conhecido como cais do Ouro. Nessa época, o mar vinha próximo ao fundo do mercado. Lá, se encontrava de tudo um pouco: cereais, verduras, temperos, frutas, especiarias e ervas. Os clientes vinham de vários bairros da cidade para fazer compras no mercado. Segundo pesquisas históricas feitas por membros da família, no ano de 1910, foi leiloado e arrematado pelo finado Francisco Amado da Silva Bahia. Segundo um dos administradores, Carlos Monteiro, 56, bisneto de Francisco Amado Bahia, a cada dois anos é escolhido em reunião quem vai administrar o espaço. Atualmente é ele quem está no cargo. Atualmente, a única fonte de renda, que inclusive mantém o mercado, é o pagamento dos aluguéis.

A loja Rosa do Ouro era uma das mais procuradas, segundo Antônia de Jesus: “A proprietária vendia ervas, folhas, especiarias, boldo, canela e outras coisas naturais”. Outro ponto que é antigo e não fechou é o restaurante do Juarez, que hoje tem 51 anos. A loja Sacarias, de Seu Benedito também sobrevive, vendendo sacos de pano de chão, tecido para artesanato e panos de prato.

Famoso filé
O que ainda leva as pessoas a freqüentar o Mercado do Ouro são os restaurantes. A comida, caseira e barata atrai pessoas de todos os lugares. O cheiro irresistível que se espalha no horário do almoço, conquista fregueses que se tornam fiéis, como o cliente Carlos Silva, que trabalha há oito anos no bairro. “Desde que comecei a trabalhar aqui nessa aérea, que freqüento esses restaurantes. Ambos tem uma comida muito gostosa, parece comida caseira. Agora já sou cliente fiel, não troco essa comida por nada”, disse Carlos Silva. Assim como Carlos, muitas pessoas que trabalham no Comércio preferem almoçar nesses restaurantes.

O Filé do Juarez, como é conhecido o restaurante dos proprietários Juarez Silveira, 80, e Felisberto Formigueli, 62, foi fundado em 1955 na parte interna do mercado. O box de número 110 começou como uma cantina, que servia almoços e ainda não tinha fama de oferecer o melhor filé. Hoje, com 51 anos, o restaurante funciona na parte externa do mercado. Os anos de existência foi dando ao restaurante uma fama que atrai pessoas de várias classes sociais, clientes que não dispensam o filé na chapa em um sábado a tarde. Segundo Juarez, há clientes que são fiéis e não demoram de aparecer, sempre procuram pelo filé, que ele diz ser o melhor do mundo. “A clientela é diversificada, aqui come pobres, trabalhadores do local, empresários e muito mais”, disse Juarez, sobre a clientela do restaurante.

O sucesso dessa comida, que muitos não dispensam na hora do almoço, vem das mãos da cozinheira Clarisse Pinheiro, 43, que trabalha no restaurante há cerca de 25 anos. A comida boa e de preço acessível é servida todos os dias, exceto domingos. Das 11h às 15h, o movimento não pára, até a hora em que a comida termina. Mesmo com 80 anos de idade, Juarez não dispensa participar da administração do local e está sempre recebendo seus clientes.

Apesar de estar decadente, o mercado ainda encanta as pessoas. Mesmo com tanto descaso, o prédio ainda sobrevive, e seduz os consumidores que vão ao local atraídos pela comida e também pelos preços populares das lojas. Os poucos pontos que restam, não desistem de lutar para manter um patrimônio que hoje se tornou um marco cultural na história do bairro do Comércio.
(novembro de 2006)

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