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Drama cotidiano

por Roberta Trindade

Ao passar próximo ao largo de Roma, na avenida Dendezeiros (Bonfim) vemos, logo cedo, uma enorme fila na frente do hospital Santo Antônio, que faz parte das Obras Sociais Irmã Dulce (OSID). São pessoas que vêm de todos os lugares, muitos deixados por kombis que os trazem do interior ou de outros hospitais de Salvador. Fundado em 1983 por Irmã Dulce, o hospital Santo Antônio nasceu com o ideal de atender todos os necessitados. Porém, devido ao grande número de pacientes, a fila nunca acaba e muitos têm que voltar para casa sem atendimento.

Segundo a assessora de comunicação, Ana Calazans, o hospital chega a atender quatro mil pessoas por dia. Ela relata que as pessoas chegam muito cedo para ser atendidas e muitas dormem na calçada para garantir as senhas, o que fez com que a OSID mudasse o horário para entregar as senhas para tentar amenizar a espera. Mas a necessidade de ter serviço médico faz com que, diversas noites, pessoas carentes continuem a dormir na fila. A voluntária Ana Maria Levindo, 73 anos, faz trabalhos religiosos com os pacientes da OSID e menciona os desabafos de Dulcinha – irmã de Irmã Dulce – sobre os problemas com a fila. Ana Maria relata que Dulcinha já promoveu mutirões para dar assistência aos pacientes que passavam dificuldades na fila.

A médica-residente Ivana Andréias Nunes, 26 anos, define o hospital Santo Antônio como referência em atendimento pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Para ela, apesar de ser mantido pelo SUS em sua maior parte, o hospital consegue dar um bom atendimento para os pacientes e concede os materiais necessários para que os médicos trabalhem. Ivana afirma que atende um número alto de pacientes que vêm de “todos os lugares” e que um volume muito grande de cirurgias são feitas diariamente, mas a lista de espera “é enorme”. Comenta também, que em alguns procedimentos médicos, o hospital tem excelência, como em cirurgia de prótese e fabricação das mesmas. Segundo a médica, o hospital tem um bom atendimento na parte infantil, no tratamento de dependentes do álcool, na ala geriátrica, com 300 leitos e possui um ambulatório com 1.090m².

O hospital Santo Antônio é o primeiro emprego do auxiliar de enfermagem, Daniel Cardoso, 21 anos. Para ele, trabalhar nas obras de Irmã Dulce é uma “lição de amor ao próximo”. Daniel afirma que a equipe tenta continuar o trabalho da freira com a mesma filosofia ensinada por ela de atender a todos, porém, as pessoas são atendidas por ordem de chegada e algumas ficam de fora. A agricultora Maria do Carmo, 53 anos, foi uma delas. Veio de Serrinha (interior da Bahia) em um carro cedido pela prefeitura, para corrigir um defeito no nariz, causado por uma queda de mula, fazer uma coloscopia e analisar feridas em seu lábio. Dona Maria estava desesperada. A máquina para fazer o seu exame estava quebrada e ela não pôde ser atendida.

O carro da prefeitura de Serrinha não foi buscá-la no dia combinado e Dona Maria suplicava ao porteiro da OSID um lugar para passar a noite. A agricultora tinha chegado a Salvador há três dias e, por não ter parentes na capital, dormiu no albergue que fica a metros do hospital. Sem dinheiro e com fome, dizia revoltada: “Eu tenho todos os documentos, sou trabalhadora (mostrava as mãos calejadas), só não tenho é dinheiro”. O albergue não a aceitou naquela noite por ter passado da hora permitida para entrar e Dona Maria esperava que lá no hospital ela encontrasse abrigo.

A OSID não resolveu o problema de Dona Maria. O porteiro conseguiu dois pães com um copo de café e ela só não dormiu na rua porque pessoas que passavam por lá se sensibilizaram e deram a ela algum dinheiro. A assessora Ana Calazans, afirma que são muitas pessoas que procuram o atendimento do hospital e por isso não teriam condições de abrigar e fornecer alimentos a ninguém, já que se desse para um, teria que dar para todos.

Com mais sorte que Dona Maria, Regina da Silva, 31 anos, de Nordestina (interior da Bahia), ficou muito satisfeita com a consulta. É a segunda vez que ela é atendida pelo hospital de Irmã Dulce e sai de lá com seus problemas resolvidos. Eram mais de 19h e o carro de Nordestina também não tinha chegado, mas Dona Regina acreditava que ele ainda viria.

As filas são a realidade de quem precisa de atendimento médico gratuito na Bahia. Passar noites dormindo ao relento para tentar a sorte de conseguir uma senha é a sina de quem não tem dinheiro para pagar um plano de saúde. No interior do Estado, assim como também na capital a falta de assistência médica impera. Devido a isso os hospitais que oferecem um bom atendimento gratuitamente acabam sendo procurados por uma quantidade de pacientes que excede sua estrutura, ficando desta forma superlotados.
(junho de 2004)

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