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Cordel urbano

por Luís Henrique Martins

Já se foi o tempo em que poesia de cordel apoiava-se no tripé seca, cangaço e Padre Cícero. Ao folhear uns livretos da Banca de Trovadores de Literatura de Cordel, que fica na Praça Cayru, em frente ao Mercado Modelo, dá pra se ter idéia que os cordéis continuam ainda populares, só que com assuntos mais atuais. Sempre há espaço para o tradicional, mas já são muitos os cordelistas que retratam o cotidiano urbano em seus versos e trazem temáticas ainda pouco exploradas pelo gênero. Política internacional, ecologia, corrupção, e até – quem diria – a Internet já viraram temas de cordel.

A tradição pregava que, assim como na concepção do vocábulo, que é derivado de corda, cordão ou barbante, os cordéis sejam vendidos pendurados. Isso já não mais acontece na banca da praça Cayru, onde os exemplares encontram-se empilhados como numa livraria normal. A inovação parece não ter afetado o comportamento dos leitores. “O cordel é que nem chita (tecido), se um não gosta, um outro já gosta e leva”, como afirma o responsável pela banca, o repentista Antônio Tenório Cassiano, mais conhecido como Paraíba da Viola.

Na busca por um único título do cordel na banca, o zelador de condomínio Sidney Santos contou que já esteve no local três vezes no último mês, sem achar o que procura. Desde a infância, Santos decorou um trecho de um cordel que “não sai da cabeça” dele: “Com a força que o homem tem/ Não há quem possa vencer/ Dá coragem ao homem fraco/ Perde medo de morrer/ Cria ferida por dentro/ Fica veloz como o vento/ E quem está por fora não vê”. Ele espera por um exemplar para contar a história aos seus filhos, assim como seu pai fizera.

O cordel procurado pelo zelador é antigo e, curiosamente, intitulado “José de Souza Leão e O Negão do Piauí”, de autor desconhecido. De acordo com Paraíba da Viola, esse título já foi solicitado a uma editora de São Paulo, mas ainda não obtiveram retorno. Para “não perder a viagem”, o zelador Santos escolhe um cordel mais atual, lançado em 2003: “Bush, a besta-fera do apocalipse”, de Zé da Madalena (R$ 1). “Assim como muitos leitores de cordel, ele (o zelador) cobra pelas re-edições das obras mais antigas, embora não deixe de admirar os cordéis atuais”, comentou Paraíba da Viola.

Rei do cangaço
Sai Lampião, entra George Bush. Em tese, foi o que aconteceu com Zé da Madalena, filho de Dadá e Corisco, companheiros do rei do cangaço. O cordelista saiu – mesmo que temporariamente – dos assuntos regionais e entrou na esfera internacional para ironizar o mandatário estadudinense: “Vou pedir inspiração/ À natureza divina/ Pra dizer a desventura/ Dessa fera assassina/ Gente igual a George Bush/ Que nem o demo imagina”.

Na capa de Bush, a besta-fera do apocalipse, há uma gravura de dois aviões cruzando os ares sob a cabeça de um dragão estampado com o número 666. Além de ser uma alusão ao ataque às torres gêmeas em Nova York, o número indicado representa, para religiosos apocalípticos, o símbolo do anticristo ou da besta.

Quem entrou numa questão regional, não menos polêmica, foi J. Caxias em O Rio São Francisco não pode ser transportado (10 páginas, R$ 2) o cordelista faz um apelo ao presidente pela “não-transposição” do que já foi considerado “rio da integração nacional”. “Confiamos em Deus e no Presidente/ Que tem sensibilidade e bom coração/ Olhai a necessidade dessa gente/ Que sofre a dureza do sertão/ Para que vivam na paz e sem risco/ Com franqueza e amor ao nosso grande Rio São Francisco”.

Neste ano, foram lançadas mais publicações que remetem a vida urbana, como no folheto O eleitor que trocou Geraldo Alckmin por um walkman (10 páginas, R$ 2), que independente do seu caráter político, um autor desconhecido conta uma divertida história de um contrariado eleitor, que muito antes de ser pró-Lula, é totalmente contra Alckmin: “Enquanto o eleitorado muito indeciso ficar/ Estou mais que decidido já no que vou comprar/ Um walkman baratinho/ E o Alckmin coitadinho/ Meu voto não vai ganhar”.

Peleja internética
Inspirados na rede mundial de computadores, dois cordelistas baianos recontam “A peleja internética entre dois cabras da peste” (R$ 2). Antônio Carlos Barreto e Jotacê Freitas citam no folheto personagens históricos, como Cabral, Napoleão ou Maria Bonita, dialogando com possíveis internautas. Na miscelânea de informações que é a rede, os autores arriscam uma síntese de um comportamento internético: “Essa tecnologia tem utilidade boa/ Você lê, escreve e fala/ Namora e transa à toa/ Negocia na Internet/ Engana e mente pra peste/ E inferniza as pessoas”.
Não à toa, um exemplar do livreto pode ser adquirido na rede através de um site dedicado apenas a autores baianos (http://www.espacodoautorbaiano.com.br), mais uma inovação dos cordelistas urbanos.

O Cordel na Bahia
A primeira fase do cordel no Brasil começa há 100 anos, quando os portugueses o introduzem pelos portões da Paraíba. A segunda fase começou por volta de 1979, momento em que o cordel foi sufocado pela grande imprensa, tempos de ditadura militar no país. Para evitar que o gênero morresse, promoveu-se um congresso internacional, aqui na Bahia. Desta forma, o movimento ganhou força e muitos cordelistas estabeleceram-se por aqui. O papel da Bahia na continuação desse gênero foi tão importante que fica sediada em Salvador, num espaço urbano, a Ordem Brasileira dos Poetas da Literatura de Cordel. A sede da Ordem fica em Dom Avelar, bairro pouco conhecido de Salvador, próximo a Pirajá. Neste bairro há uma grande concentração de emigrantes paraibanos. Tendo como seu morador mais ilustre o cordelista e repentista Antônio Ribeiro da Conceição, mais conhecido por seu nome artístico, Bule Bule.

Homenagens póstumas
É na casa de Bule Bule que os membros da Ordem se reúnem pelo menos uma vez por ano, num evento que marca homenagens póstumas. O dia 08 de outubro, data do nascimento de Catulo da Paixão (1863-1946) – poeta pioneiro do Nordeste a ter uma letra sua gravada em disco – é também “data que marca a passagem de Rodolfo Cavalcante [1917-1986] para o mundo espiritual”, como diria Paraíba da Viola. Diante de tantas inovações, pelo menos nessa oportunidade, os cordelistas urbanos tentam manter viva uma das tradições do cordel: a de homenagear seus antepassados.
(novembro de 2006)

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