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Bairro recria a sua história

por Pedro Cavalcanti

Das especiarias aos serviços, o bairro do Comercio em Salvador ressurge como um importante espaço de desenvolvimento urbano. Principal porta de entrada da cidade na primeira metade do século XX, o Comércio recebia da Baia de Todos os Santos os principais produtos agrícolas que movimentavam a economia baiana. O que gerou riquezas para o bairro, visíveis na suntuosidade de seus casarões e prédios comerciais. Possibilitando um lastro econômico que trouxe a Salvador o desenvolvimento necessário para assumir seu papel de metrópole. No entanto, o pólo econômico da cidade mudou seu eixo, passou da cidade baixa para a cidade alta, e Salvador cresceu contrariamente ao tradicional centro econômico do Comércio. A partir da década de 70, a nova dinâmica urbana da cidade fez expandir seus setores norte e nordeste, na região do Iguatemi, levando à conseqüente decadência ao bairro. Como nos lembra Edmundo de Jesus: “antigamente todo mundo passava ali pelo Terminal da França, o movimento era bom, depois piorou muito”, afirma o vendedor de caldo de cana que trabalha há quase vinte anos na região. Porém há alguns anos tem se observado um clima diferente daquele ar de nostalgia que ali imperava. Como nos diz o vendedor: “não tá como antes, mas tá melhorando”. Seu Edmundo faz ponto na avenida Estados Unidos, próximo ao Banco do Brasil. Vizinho a ele está Raimundo Figueredo, aposentado, trabalha há um ano no Comércio vendendo doces e salgadinhos do interior. Sorridente conta que deixou para trás seu ponto na Calçada para aumentar em 100% seu faturamento: “lá era uns cem reais por dia, aqui chega a passar dos duzentos”. No entanto esse aumento nas vendas comemorado por Seu Raimundo não é fruto do acaso. A chegada dele ao bairro coincidiu com a implantação, na mesma avenida, de trinta e nove Varas do Tribunal Regional do Trabalho 5º Região, por onde passam, em média, dez mil pessoas por dia. Dois meses antes, em Agosto de 2005, do outro lado da rua, instalava-se a Faculdade Dom Pedro II com cinco cursos e setecentos alunos, potenciais consumidores de rapaduras e caldos de cana.

Assim como Seu Raimundo, Dilcimar dos Santos, atendente em uma loja de materiais elétricos na Rua Santos Dumont, comemora a vinda para o Comércio depois de sofrer com a concorrência na Calçada. No atual estabelecimento ganhou um novo e estratégico cliente, o Escritório de Revitalização do Comércio. Coordenado por Marcos Cidreira, o escritório é vinculado a SETIN – Secretaria Municipal de Infra-estrutura e tem como missão desde novembro de 2003 aglutinar informações e articular as diversas ações da Prefeitura no bairro.

O processo de revitalização teve início no final da década de 90, visando a reocupação da área através de políticas de incentivo e atração de novos investimentos, e vem trazendo resultados. Há dois anos a população circulante era em torno de oitenta e cinco mil pessoas e hoje ultrapassa a casa dos cento e trinta mil. O incentivos fiscais como isenção de IPTU e redução do ISS de 5% para 2% são os grandes atrativos para novos empreendimentos. Quase em frente ao Escritório de Revitalização na Rua Pinto Martins, está a Contex, um centro de Call Centers por onde circulam cerca de três mil pessoas por dia. Antes localizava-se no edifício Capemi no Iguatemi e com a vinda para o Comércio demonstra uma tendência até então impensável. A vinte metros dali, na Rua Miguel Calmon, está o antigo prédio da Lesta Brasileiro que no final de Agosto foi comprado pela Faculdade Dom Pedro II. Desocupado há mais de trinta anos, o imóvel de seis pavimentos e cinco mil metros quadrados de área construída deverá atender cerca de dois mil alunos. Segundo Cláudia Luíza, da administração da faculdade, o anexo será inaugurado em junho de 2007.

Primeiro grande estabelecimento a se instalar no bairro como fruto da revitalização, a Faculdade da Cidade atende 3.600 alunos. Com oito cursos, desde o primeiro semestre de 2004, ocupa o antigo prédio do Banco Econômico na Praça da Inglaterra. De acordo com Franklin Esquivel, da coordenadoria administrativa, a faculdade em parceria com a prefeitura deve adotar aquela praça afim de recuperá-la como ambiente de convívio para alunos e transeuntes. A iniciativa faz parte do programa da Prefeitura “Adote uma Praça”, que capta recursos junto à iniciativa privada.

Segundo o Escritório de Revitalização do Comércio, o mês de novembro será marcado pela inauguração de uma grande loja do grupo Le Bisciut na Rua Torquato Bahia e pelo início das obras de dois grandes empreendimentos. São eles: o complexo de lazer do empresário alemão Peter Bayer, formado por um restaurante, um bar e uma boate; e o hotel cinco estrelas do grupo português Imocon.

Além de estabelecimentos privados, instituições gorvenamentais do município passaram a ocupar o Comércio. Como a Secretaria de Esporte e Lazer, a Ouvidoria-Geral e a Secretaria Municipal de Saúde, esta última na Rua Miguel Calmon.

O bairro do Comércio tenta se reerguer, com aparentes mudanças sociais, econômicas e espaciais, recuperando monumentos e prestígio. A exemplo do Plano Pilar, re-inaugurado em abril deste ano depois de vinte e dois anos inativo, e o Forte São Marcelo, reaberto à visitação pública. Demonstrando uma vontade em reviver seus tempos áureos, ao mesmo tempo em que constrói uma nova história.
(novembro de 2006)

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