por Patrícia Bitencourt
Subir a Colina Sagrada da Igreja do Bonfim para pagar promessas ou simplesmente para pedir proteção ao santo padroeiro da Bahia é uma tradição que remonta várias décadas e atravessa gerações. Mas para o ritual ser completo é necessário um adereço fundamental: a fitinha do Senhor do Bonfim. É aí que entra mais uma tradição local: os vendedores ambulantes, tentando, a todo custo, comercializar os seus produtos.
Com camisas, santinhos, patuás e outros souvenires, eles chegam de forma insistente, penduram colares e amarram fitinhas de forma que o cliente sinta-se forçado a levar um produto. Cristina Vasconcelos, advogada, 32 anos, conta que ficou intimidada e surpresa com a abordagem. “Sou do Rio de Janeiro e é a primeira vez que venho à Bahia, e sempre senti vontade de conhecer a Igreja do Nosso senhor do Bonfim. Mas, logo que cheguei os vendedores se aproximaram de forma agressiva querendo a qualquer custo que eu comprasse as fitinhas”, diz.
Ao redor da Igreja há algumas lojas que vendem produtos religiosos também, porém com o preço parecido ou menor que os vendidos pelos ambulantes. Alguns deles não quiseram se identificar, mas todos concordam que os ambulantes agridem a imagem da Bahia e lesam os turistas desavisados. “Outro dia eles venderam para um casal de São Paulo 10 fitinhas por R$25 e quando os dois entraram aqui na minha loja e viram 32 fitinhas por R$1 ficaram indignados. Deu até polícia”, comenta Antônio Arruda, comerciante local há mais de 30 anos. Um outro dono de loja que não quis se identificar afirmou que os ambulantes não atrapalham na renda do estabelecimento, já que este tem preço baixo e uma clientela fixa. Mas, conta que o número de turistas tem diminuído.
Para os ambulantes, a abordagem é uma forma de conquistar o cliente e oferecer o produto antes dos outros vendedores. “A concorrência aqui é grande, ou corre e chega primeiro ou fica para trás, mas a gente aqui é da paz. Nós perturbamos, mas não atacamos”, diz Lázaro Santos, 22 anos, há três anos trabalhando no Bonfim. Lázaro foi pai aos 17 anos e sentiu que era necessário ir em busca de uma renda para que pudesse sustentar o filho. Por influência de um primo que já trabalhava como ambulante, pegou um dinheiro emprestado, comprou mercadorias religiosas e foi para o Bonfim. Dessa forma está vivendo e o dinheiro tirado ali é o sustento da sua família. Ele diz que a renda varia muito, mas que bom mesmo é de dezembro a fevereiro, quando já conseguiu em um único dia R$350.
Maria do Carmo, 61 anos, diz não se recordar há quanto tempo trabalha na frente da Igreja. “Tem muitos anos, nem me lembro. Quem começou com essa idéia foi meu marido. Hoje ele já está lá do lado do Nosso Senhor do Bonfim, rezando aqui por mim. Mas, quando a gente começou era melhor, os lucros eram maiores. Hoje a concorrência é grande e os meninos, os mais novos, têm pique de ficar correndo atrás de turista. Eu ofereço daqui, sentadinha mesmo”, comenta.
Gleidson de Jesus, 19 anos, há seis meses trabalhando no Bonfim, resolveu virar ambulante porque o pai (ambulante na Avenida Sete de Setembro) ameaçou expulsá-lo de casa, se não arrumasse um trabalho para ajudar na renda. Mas, diz que o melhor mesmo de ter um “dinheirinho” no final da semana é quando sobra um trocado para a diversão. “Oxe! Eu pego as periguetes, levo para a praia, tomo umas cervejinhas, aí eu sinto que meu dinheiro foi bem investido”, diz.
Uniformizados
Em janeiro deste ano, a Secretaria Municipal de Serviços Públicos (Sesp) começou um projeto de cadastramento dos ambulantes de toda a capital. Além dos coletes, eles usam crachá com identificação e um cadastro das mercadorias vendidas. O objetivo da secretaria é facilitar o ordenamento do comércio e evitar a ação de vendedores clandestinos e de mercadorias contrabandeadas. Cada localidade de serviço tem uma cor diferente, os ambulantes do Bonfim estão com os uniformes azuis.
Para o presidente do Sindicato dos Ambulantes, João Prazeres, a medida está sendo positiva, pois tem evitado também a migração dos ambulantes para outras áreas. “A identificação beneficia quem trabalha de forma correta. Seria interessante que aqueles que ainda se encontram na clandestinidade passem a aderir ao projeto”, afirmou Prazeres. Os vendedores cadastrados pagam a cada três meses R$58 para a Sesp.
Mas ainda há quem não concorda com o projeto, muitos alegam que a renda advinda dos produtos são baixas, e pagar taxas e impostos não sobra muito. Mesmo com a ação do sindicato e da prefeitura de cadastrar todos os ambulantes, muitos preferem trabalhar na clandestinidade. “Logo quando fui para o Bonfim, começou esse negócio de padronizar os ambulantes. Aí foi que deu merda, esse negócio de ainda ter que dividir dinheiro com prefeitura não dá certo não, aí sou clandestino”, diz o ambulante.
O pároco da Basílica do Nosso Senhor do Bonfim, monsenhor Walter Pinto, que há 25 anos está no comando da igreja, diz que, além dos turistas, muitos fiéis têm reclamado da abordagem dos ambulantes. “Tenho recebido queixas até mesmo daqueles que sempre freqüentam a paróquia. Mas acho que é mais uma forma de trabalho, o que eu acho é que antes de padronizar esses vendedores, deveriam ensiná-los, montar cursos, seminários de como abordar sem agredir. Com certeza todos sairiam ganhando”, disse o padre.
(novembro de 2006)
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