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Palácio dos jesuítas

por Pedro Caldeira

A Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim é um dos poucos lugares da cidade de Salvador que possui, ao mesmo tempo, importância histórica, religiosa, arquitetônica, potencial turístico, abriga um colégio e foi palco de importantes descobertas de relíquias. Além da arquitetura colonial do prédio, em suas salas encontram-se valiosos documentos do passado, objetos antigos e raros, pinturas e obras importantes para o desenvolvimento do turismo na cidade. Um lugar bonito, porém, esquecido, que retrata o passado e faz o visitante viajar no tempo.

A construção teve início em 1706 e foi concluída em 1724. A obra serviu para a instalação do Noviciado dos Jesuítas e se chamava, inicialmente, Seminário da Anunciada da Jequitaia. Foi idealizada pelo descobridor e conquistador do Estado do Piauí, Domingos Afonso Sertão, para ser doada ao Provincial dos Jesuítas. Em 1759, quando foi extinta a Congregação da Companhia de Jesus no Brasil, o seminário foi incorporado aos bens da Coroa.

Em 1808, o esmoler Joaquim Francisco do Livramento obteve permissão Régia para utilizar a edificação como colégio para órfãos pobres. Em 1819, o rei D. João autorizou a reedificação para que os meninos fossem instalados, como conta a inscrição na fachada do prédio, acima do portal da capela de São Joaquim. “El Rei João VI por mediação do Governador Conde de Palma doou esta caza aos Orphãos desamparados, que o irmão Joaquim pozéra a são Joaquim ás esmolas dos fiéls”. De outubro de 1825, até os dias atuais, muitas gerações passaram por suas dependências.

Instituição particular que presta serviços sociais, a Casa Pia é conduzida por uma Mesa Administrativa. Mesmo passando por restaurações, sua arquitetura colonial não foi alterada. O prédio tem um comprimento de 75,50 metros e apresenta a porta da igreja no centro, o que a diferencia das demais, já que ao adentrar nas outras capelas vê-se o altar, mas na de São Joaquim, a visão é para os assentos. O resto da construção tem a forma de um quadrado, com um espaçoso pátio composto por dois andares, e, nas suas paredes, janelas e arcadas. Gilma de Sá, Assistente da Provedoria, afirma que a Casa vive em restauração, e que depois da expulsão dos Jesuítas pela Corte, a construção foi se deteriorando até ser reaproveitada.

A Capela se encontra na ala principal do edifício e tem três altares lajeados de pedras européias. No teto há uma pintura do artista baiano José Teófilo de Jesus, onde estão registrados anjos e Nossa Senhora Anunciada. No altar central, encontram-se as imagens de São Joaquim e dos evangelistas Mateus, João, Marcos e Lucas, na lateral direita a de Nossa Senhora Anunciada e na esquerda, a peça de São Simão. Saindo da capela há o cemitério onde estão túmulos de vários Jesuítas que passaram pela Casa.

Relíquias ainda são encontradas no prédio. Os últimos achados foram uma espada de duas lâminas, balas de uma arma antiga, fragmentos de louça francesa, tijolinhos, alças e puxadores de panelas, provavelmente do século XVII, que estavam num forno de barro. A notícia do encontro dessas peças se espalhou, a imprensa fez inúmeras matérias e acabou chamando a atenção da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que acabou entrando em conflito com a Casa Pia ao afirmar que eram proibidas escavações sem uma prévia autorização e estudos. Segundo Gilma, “alguém colocou os objetos no fogão da padaria”. Criou-se uma inimizade entre a instituição e o órgão de preservação. E ela ironiza, “Não acham pêlo de burro e dizem que é de alguém importante?”. Até a edição da matéria, não foi possível uma entrevista com Mauricio Chagas, do IPHAN.

Casamentos
É sabido que a Capela de São Joaquim sempre foi palco de casamentos da elite. Há 20 anos, o único lugar chique em Salvador era na Casa Pia. E para Gilma, continua sendo. O prédio é alugado para casamentos, desfiles, formaturas e jantares, e não há mais finais de semana disponíveis para eventos até o ano que vem. Os noivos Karina Serrano e Antônio Terêncio vão se casar em dezembro, e escolheram a Capela pelo valor. “É a mais barata. E nessa época que nada está fácil, resolvemos unir a beleza e o baixo preço, celebrando o casamento em São Joaquim”. César Ribeiro, vendedor na Feira de São Joaquim, casou há 15 anos na Capela. “Foi uma cerimônia simples, oferecida pela Casa Pia, porque eu estudei lá e sempre sonhei em me casar lá”. Atualmente, seu filho mais novo é aluno do Colégio dos Órfãos São Joaquim.

A Capela não é uma igreja, como muitos pensam. Ela nunca está aberta para o público e fiéis, não há um padre e uma paróquia, as missas apenas são realizadas por encomendas, com exceção das comemorativas, como a de São Joaquim, São Simão, a das crianças e as de início e final de ano, explica Gilma.
(junho de 2003)

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