por Pedro Caldeira
A Feira de São Joaquim não somente atrai turistas e soteropolitanos que buscam variedades de alimentos e peças para o dia-a-dia. Fotógrafos, artistas plásticos e decoradores também recorrem à feira para realizar seus trabalhos. As cores e formas como as frutas são arrumadas nas barracas, as verduras que se misturam às ratoeiras e imagens de entidades do candomblé, e a exploração da rotina na mais conhecida feira da capital baiana são buscadas pelos artistas.
Não há baiano que não conheça São Joaquim. Até mesmo produtores de evento, como Gil Santos, que trabalha nas festas realizadas por Lícia Fábio, uma das mais conhecidas promoters da cidade. Gil passou a “ver a feira com outros olhos” quando, há seis anos, fez a produção executiva da revista Vogue Bahia, e o editorial foi feito em São Joaquim. A partir dali, sempre que recebia um projeto para uma festa, Gil recorria ao seu amigo Ricardo, proprietário da mais conhecida loja de artesanato da feira, o Palácio de Oxossi. Além da diversidade de produtos que encontra, afirma que o maior motivo para se comprar objetos no Palácio é o preço.
A maioria das festas que decora são particulares, e é principalmente nelas que Gil mostra sua versatilidade e ousadia ao colocar em um simples vaso de barro – adquirido na feira – uma bela e rara orquídea. “Esse contraste faz com que os convidados não acreditem que a feira venda coisas bonitas e que possam ser aproveitadas. Basta ser rústica, sofisticada e ter olho clínico”, diz. Gil também compra peças ligadas à cultura da Bahia, principalmente artefatos ligados ao Candomblé, como imagens de entidades, búzios e estrelas-do-mar. “Afinal, Lícia gosta muito de trabalhar com temas baianos. E o que mais, além do Candomblé, retrata melhor o Estado?”.
Cores, listras, retas, agrupamentos. É necessário sensibilidade para conseguir reunir 20 fotografias em uma exposição. Giovana Dantas, artista plástica e professora das Faculdades Jorge Amado, pôde reunir esses registros e passá-los, em fotos, para os visitantes da “Feira Livre, Instalações Culturais”, na Galeria da Aliança Francesa, entre os dias 20 de março e 18 de abril de 2003. Giovana freqüenta a Feira de São Joaquim desde criança e algo sempre a perturbou. Depois de estudos, concluiu que precisava flagrar as exposições das coisas, provocando os sentidos das pessoas sem transportar a feira para a galeria, apenas os retratos que mostravam a feira de outra forma.
O estudo da artista-pesquisadora, que não é fotógrafa, apenas utilizou outra forma de trabalhar, é a arte contemporânea, instalações e construções de um trabalho que provoque os sentidos do espectador. E a feira é assim, nas suas próprias formas. Incensadores, pimentas, corantes, colher de pau, cestos e pratos de barro. Algumas das fotografias expostas atiçam os sentidos e levam os espectadores ao mundo de São Joaquim. Giovana alcançou seu objetivo ao descobrir o que a perturbava tanto na infância. As cores, listras, retas e agrupamentos, provocavam os sentidos de quem visitou a exposição.
Projetos sociais
Mas não somente baianos procuram São Joaquim para realizar seus trabalhos. O fotógrafo italiano Rino Barillari, conhecido na Europa como “o rei dos paparazzos”, veio até a feira a pedido e uma ONG internacional, para retratar lugares carentes. Essas fotos (somadas a outras tiradas em várias partes do mundo) farão parte de um livro que será distribuído aos governantes desses locais e, junto a elas, um pedido para a construção de centros poliesportivos, para que as crianças moradoras desses lugares não se entreguem às drogas e à violência, e sim possam planejar um futuro digno. Rino fotografou crianças misturadas à sujeira da feira que, mesmo estando seminuas e vivendo em um lugar precário, “conseguiam dar um inocente sorriso”, diz.
A feira tornou-se moderna. Profissionais buscam mostrá-la à sociedade através de seus trabalhos, dando uma nova imagem a quem tinha idéia de ela se tratar de um lugar imundo, com animais sendo abatidos ao ar livre. Lá se encontra de tudo, desde peças a serem usadas com complementos caros, formas e enquadramentos para quem souber analisar, e projetos sociais de nível internacional. A Feira de São Joaquim tornou-se moderna porque se adaptou ao desenvolvimento e através da mídia encanta pessoas, com novas descobertas a cada viela.
(junho de 2003)
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